
O miolo faz o boi ter ‘vida’ e ‘dançar’ diante do público, uma missão que exige do brincante força e resistência física, além de habilidades no bailado e nas performances. Brincante invisível: conheça o miolo, responsável por dar ‘vida’ ao boi nos grupos de bumba meu boi do MA
Divulgação/Boi Valente da Ilha
‘Sem miolo o boi não dança’, a frase conhecida nas apresentações de bumba meu boi no Maranhão reforçam a importância do miolo no auto junino, que é a pessoa responsável por carregar a armação de madeira que retrata o boi.
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Personagem principal no auto junino, o boi é o protagonista da estória que envolve as práticas populares dessa brincadeira no Maranhão. De modo geral, o enredo da manifestação folclórica gira em torno da realização do desejo de Catirina, uma negra, grávida, escravizada de uma fazenda, que quis comer a língua do touro preferido do dono da fazenda ou amo. Desejo esse realizado por seu parceiro, negro Chico.
Brincante invisível: conheça o miolo, responsável por dar ‘vida’ ao boi nos grupos de bumba meu boi do MA
Divulgação/Boi Valente da Ilha
E em meio a essa trama, o animal acaba sendo ressuscitado, o que dá origem a uma grande festa na fazenda. Daí a importância desse animal no auto junino, como explica a pesquisadora do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Marla Silveira, em entrevista ao g1 MA.
“O boi, que pode ser, ainda, denominado de ‘novilho’ ou ‘touro’, é absolutamente importante no auto junino do bumba meu boi maranhense, porque ele representa a oferenda, a promessa a São João. A dádiva envolvida na ritualística do bumba meu boi. O dom de receber e retribuir uma graça, como são as estórias em torno do bumba meu boi e as narrativas do auto, que apresentam elaborações diversas, de acordo com os diferentes sotaques de bumba meu boi”, destaca.
E quem dá ‘vida’ a esse personagem é o miolo, chamado também de ‘tripa’, ‘alma’, ‘fato’, ‘espírito’ ou ‘condutor’, que dança debaixo do boi. Recolhido na invisibilidade, esse integrante do grupo de bumba meu boi dá vida ao personagem principal da manifestação popular, fazendo o boi ter ‘vida’ e ‘dançar’ diante do público, uma missão que exige do brincante força e resistência física, além de habilidades no bailado e nas performances.
A pesquisadora Marla Silveira destaca que o miolo permanece invisível à atenção do público durante toda a apresentação do auto junino, ficando escondido embaixo do boi, bailando com os demais personagens e brincantes ou protagonizando o enredo que envolve o auto do bumba meu boi.
“Com movimentos rápidos e lentos, mas de maneira alternada, e sob os ritmos que dão sonoridade estética aos diferentes grupos de bumba meu boi, os miolos executam passos bem elaborados e precisos, para encenar a coreografia do boi nas apresentações públicas, dançando no centro dessa grande brincadeira de roda que é o bumba meu boi do Maranhão, ou no auto”, destaca a pesquisadora.
E desse bailado Rafael dos Santos, de 32 anos, entende bem. Ele é miolo de boi há 23 anos, pois só tinha 9 anos de idade quando começou a dar alma ao boi no Boizinho de Cofo, em Codó, no interior do Maranhão.
“Sempre gostei de São João, das brincadeiras juninas, e sempre me encantei com a figura do miolo. Então, pra mim, acabou sendo algo natural. É uma responsabilidade muito grande porque o miolo, o boi, é uma figura central de qualquer batalhão. Graças a Deus sempre fiz o meu trabalho com muita responsabilidade e sempre fui querido por todos onde já brinquei”, afirma Rafael.
Depois de passar por outros grupos folclóricos, desde 2013 Rafael assumiu a responsabilidade de ser miolo do boi Valente da Ilha, em São Luís.
“Estou desde a fundação do batalhão e não pretendo deixar essa família. Pra mim, é uma responsabilidade e uma alegria muito grande poder vestir essa camisa, ser parte do São João mais bonito do mundo”, ressalta.
Rafael dos Santos é miolo do boi Valente da Ilha.
Divulgação/Boi Valente da Ilha
E haja responsabilidade para ser miolo de boi. Com uma média três apresentações por noite, podendo chegar a cinco ou seis shows, com duração de 45 minutos a 1h, o miolo do Valente da Ilha tem que ter muita valentia para carregar cerca de 25 quilos da armação do boi.
“A armação é feita de buriti, mas chega a pesar até 25 kg, dependendo do bordado. O nosso boi é bem bordado, então acaba ficando bem pesado. E pode parecer clichê, mas não deixa de ser verdade, pra dar conta, só tendo muito amor pelo São João. Não é pra qualquer um. Tem muita gente que entra porque acha bonito, quer tirar fotos com as indumentárias pra postar nas redes sociais, mas acaba desistindo depois das primeiras noites de São João, porque é uma rotina muito pesada. Então, pra dar conta de uma temporada inteira, só tendo muito amor mesmo pelo São João e pelo papel que você representa dentro da brincadeira”, explica o miolo.
Questionado sobre ser invisível na brincadeira, Rafael afirma deixar de ser ele mesmo para ser o miolo durante as apresentações.
“Na hora das apresentações eu me transformo. Quando subo no palco eu não sou o Rafael, eu sou o miolo, eu represento a figura do bumba boi, do Valente da Ilha. E é isso o que importa. Mas o reconhecimento do trabalho existe, nos aplausos dos espectadores, quando o espetáculo termina e as pessoas pedem pra tirar fotos com você, elogiam a sua performance”, comemora.
E esse reconhecimento também vem do presidente do boi Valente da Ilha, Arialdo Moraes, também conhecido como Arialdo Valente, de 59 anos. O presidente destaca que Rafael é um miolo excepcional.
“Começamos, lá em 2013, com dois miolos. Depois ficamos com apenas um, o Rafael, que está conosco desde o início e é um miolo excepcional. Até o meio dessa temporada estávamos só com ele, mas agora contratamos mais um miolo pra reforçar o nosso batalhão. A responsabilidade de cuidar do boi é do miolo. E o Rafael é um miolo muito cuidadoso, que inclusive tem grande ciúme do boi que ele utiliza, não gosta muito de deixar na responsabilidade de outros brincantes”, destaca Arialdo Valente.
Arialdo Valente, presidente do boi Valente da Ilha.
Divulgação/Boi Valente da Ilha
E, para Rafael, por mais que admire todos os integrantes do bumba meu boi, ser miolo é sua vocação.
“Minha vocação é ser miolo. Admiro os vaqueiros, os campeadores, os fitas, admiro o trabalho de todos, mas eu acredito que a minha vocação é ser miolo, é onde eu me encontrei no São João. Amo o meu papel, amo o meu batalhão. E, graças a Deus, acredito que tenho feito um bom trabalho nesses 23 anos”, finaliza.
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A capoeira do boi
Brincante invisível: conheça o miolo, responsável por dar ‘vida’ ao boi nos grupos de Bumba Meu Boi
Divulgação/Wesley Ramos
Além do bailado que o miolo faz durante as apresentações folclóricas do bumba meu boi, a decoração da armação do boi, também chamada de capoeira, carcaça ou cangalha, chama muito a atenção do público.
A armação que imita o boi é feita de madeira, com uma cobertura de tecido veludo, que representa o couro do boi. Esse couro é bordado com miçangas, canutilhos, paetês e pedrarias, altamente artísticos, como explica a pesquisadora Marla Silveira.
“Os bordados recebem elementos simbólicos de representação religiosa, podendo ser da religiosidade euro-católica e da afro-indígena, ou ambas, coexistindo nos fluxos das crenças que envolvem a prática do bumba meu boi. Os bordados recebem também, como temas, elementos da natureza como flores, árvores, ou imagens de representação arquitetônica como igrejas, casarões, azulejarias, monumentos simbólicos ou ainda de figuras/personalidades importantes para o bumba meu boi ou, ainda, personalidades políticas e históricas”, aponta.
Sobre os bordados dos couros dos bois do bumba meu boi maranhense, a pesquisadora destaca que eles têm a peculiaridade de serem artisticamente bem trabalhados, “levam bastante tempo para serem feitos e têm ainda a função de representarem a identidade do grupo de bumba meu boi do qual o boi pertence”.
No Boi Valente da Ilha, a questão da identidade do grupo representada na capoeira do boi é algo levado muito a sério. Segundo Arialdo Valente, no Valente há duas armações, que foram feitas pelo artista maranhense Manoel ‘Tetéu’, de Campo de Peris, que já faleceu.
Atualmente, os bordados do couro foram feitos por Douglas Artesão, do Residencial Pirâmide, na cidade de raposa, na Grande São Luís. Por ser um trabalho primoroso e de alto custo, a decoração não é mudada todos os anos.
“A gente fez questão de caprichar nos bordados dos nossos bois, preenchendo bem, representando figuras obrigatórias da nossa cultura popular, como as coreiras, os santos, os azulejos, a bandeira do nosso estado, para que, de certo modo, esse bordado seja ‘atemporal’ e possa ser apreciado todos os anos pela sua beleza. O que mudamos todos os anos, e isso foi uma inovação do Boi Valente da Ilha, é a barra do boi, que sempre vem com cores combinando com as das índias guerreiras. Hoje muitos outros batalhões também fazem isso”, explica o presidente do Valente da Ilha.
Brincante invisível: conheça o miolo, responsável por dar ‘vida’ ao boi nos grupos de Bumba Meu Boi
Divulgação/Boi Valente da Ilha
Encontro de miolos
O miolo de boi é tão valorizado na cultura maranhense que, desde de 2001, é realizado o encontro dos miolos de bois na Grande São Luís. Idealizado pelo produtor cultural Zé Reis, o encontro tem o objetivo de homenagear os brincantes que ficam em baixo do bumba boi.
"O Encontro dos Miolos, antes chamado de Cortejo dos Miolos, vem fazer uma justa homenagem a uma das mais importantes personagens do bumba meu boi, justamente o 'miolo', o homem que leva e da vida ao boi nos terreiros, um ator que não aparece na cena junina e que recebe esse tributo para ser destacado, sem passar despercebido. A importância desse encontro para a cultura maranhese vai ao encontro da contribuição com a preservação e promoção permanente das manifestações culturais tradicionais, com especial atenção ao bumba meu boi, patrimônio imaterial do mundo", explica a produtora cultural Márcia Renata, que faz parte da organização do evento.
Encontro de Miolos de boi em São Luís
Divulgação/JBnaEstrada
A festa, que já é uma tradição junina no Maranhão, começou no bairro do Maiobão, em Paço do Lumiar, na Grande São Luís. E, diante da proporção do encontro, ele passou a ser realizado anualmente no Centro Histórico de São Luís.
Todos os anos, cerca de 50 homens e mulheres que dão vida ao boi no auto junino se reúnem no centro da capital maranhense, saem em cortejo e depois se juntam para dançar. Para Marla Silveira, o encontro de miolos de boi é uma oportunidade de apreciar a beleza dos diferentes bordados de couros de bois, além de ser um momento de se encantar com a diversidade dos bailados que o miolos desenvolvem enquanto dançarinos, que dão movimento e vida aos bois.
“É, na verdade, uma grande exposição de formas e de couros de bois, a céu aberto, no Centro Histórico da capital do Maranhão, São Luís, um local tombado como patrimônio histórico, devido à beleza, riqueza arquitetônica e valor histórico. O encontro de miolos é uma importante ação cultural que expõe, mostra, reconhece e evidencia a existência dos miolos de bois e a beleza e diversidade contida nos couros”, destaca a pesquisadora.
Em 2023, o Encontro de Miolos está agendado para acontecer no dia 14 de julho. Segundo Márcia Renata, o evento ainda não conseguiu apoio necessário para a sua devida realização. Mas, a produção do evento está buscando os patrocínios para que o encontro aconteça.
O idealizador e coordenador-geral do Encontro dos Miolos, José de Ribamar Sousa Reis, o popular 'Zé Reis' , ainda está se recuperando de um grave acidente de trânsito, que sofreu em 2022. Por causa disso, a coordenação do evento, que chega a sua 18ª edição, ficará por conta do irmão e tutor de 'Zé Reis' , José Henrique Reis e a produção da RAJADUS produções e eventos.
Brincante invisível: conheça o miolo, responsável por dar ‘vida’ ao boi nos grupos de bumba meu boi do MA
