‘Aos 10, vivia em casa com traficantes’: britânica conta como escapou de violência e abusos

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Britânica Aliyah cresceu sob negligência, fome e abusos dentro de casa, um padrão muitas vezes oculto e comum para garotas, dizem especialistas. Aliyah cresceu sob negligência e violência, um padrão comum para muitas garotas, dizem especialistas
BBC
À primeira vista, Aliyah se parece com qualquer outra garota de 24 anos: ela adora moda, posta selfies no Instagram e parece feliz.
Mas seu sorriso esconde um histórico de abusos e exploração — um padrão que os especialistas alertam ser muito comum entre adolescentes negligenciadas.
As primeiras lembranças de Aliyah não são de viagens em família e de ursinhos de pelúcia.
Em vez disso, ela se lembra de voltar da escola e se sentir aliviada ao ver que a janela da frente estava aberta. Isso significava que seu pai estava deixando entrar ar em casa para ventilar a fumaça das drogas.
Aliyah não sabia muito sobre drogas naquela época. Mas aprendeu que a janela aberta significava que ele estaria de bom humor.
"Se a janela estivesse fechada, era sinal de que não havia fumaça, então o papai não estava tendo o que precisava", diz ela.
Na época, ninguém fora da família sabia o que acontecia a portas fechadas em sua casa no sul de Londres.
Ela diz que havia violência na residência e, às vezes, sobrava para Aliyah.
Ela e a irmã se abraçavam no beliche chorando até dormir durante a noite.
Aliyah na infância; ela lembra de quando ia para a escola com fome
Arquivo pessoal/BBC
Às vezes, o dinheiro era escasso e, como resultado, a comida também — Aliyah se lembra dos dias em que não havia nada em casa e ela ia para a escola com fome.
Se passariam anos até que Aliyah e seus irmãos fossem acolhidos pelo serviço social.
Aliyah sente que foram perdidas oportunidades de proteger a ela e a seus irmãos — ela se lembra dos pais apresentando sua "melhor versão" quando as autoridades apareciam.
Histórias como a dela seguem um padrão clássico, diz Kendra Houseman, consultora em atividades criminais infantis:
"Se o lar não for um lugar seguro, isso as torna vulneráveis ​​à exploração".
E ela adverte que há muito mais garotas como Aliyah escondidas por aí.
Mas desafiando todas as expectativas, Aliyah finalmente conseguiu mudar sua vida.
Em um dia ensolarado, quando ela tinha oito anos, o pai de Aliyah convidou amigos para comemorar seu aniversário.
Alguém deu champanhe a Aliyah. Ela bebeu tanto que teve que ser levada ao hospital com intoxicação por álcool.
Foi o início da história de Aliyah no consumo abusivo de álcool.
"Depois disso, eu apenas bebia — sempre queria beber", diz ela.
Aos 13, Aliyah se tornou dependente de álcool.
"A bebida se tornou um problema: eu bebia porque estava deprimida."
O casamento de seus pais acabou, seu pai saiu da casa da família e, com o tempo, o local se tornou o que é conhecido nos círculos das drogas como uma trap house — uma propriedade onde as drogas e armas eram armazenadas, e onde os traficantes se reuniam.
Aliyah se lembra de ter sido deixada sozinha lá uma vez.
Ainda criança, ela presumiu que era sua culpa, de alguma forma:
"Eu honestamente não sabia o que tinha feito. Eu tinha 10 anos, deixada com todos esses traficantes na minha casa", diz ela.
Havia um homem, um visitante regular da casa, que percebeu que algo estava errado.
"Ele demonstrou um cuidado mais genuíno", diz ela.
Ele cuidaria de Aliyah, se tornou um amigo e permanece em contato com ela até hoje.
"Acho que ele viu uma garotinha que não tinha os pais, do jeito que ela precisava, e acho que ele só queria mostrar um pouco de apoio aqui e ali quando podia."
Mas embora Aliyah estivesse no sistema de proteção à criança, ela ainda era deixada para viver nessas circunstâncias — e Aliyah tem dificuldade de entender a conduta das autoridades.
"Acho que eles deixaram de ver muitas coisas", diz ela. "Hoje em dia, se isso acontecesse numa casa, a criança teria sido retirada de lá imediatamente."
Finalmente, quando Aliyah tinha 12 anos, ela foi levada pela assistência social. No entanto, nessa época ela já era uma criança profundamente problemática.
Aliyah diz que passou por cerca de 20 lares adotivos em um período de três anos. Ela fugia e dormia na rua. Bebia até desmaiar.
Na escola, seu comportamento piorou — ela quebrava coisas e intimidava outras crianças.
Ela se lembra de sentir que não tinha saída e de que estava existindo em modo de sobrevivência. Ela se automutilou e tentou se suicidar em várias ocasiões.
Enquanto andava com adolescentes mais velhos, ela foi atraída para um mundo de crime, violência e drogas.
Aliyah começou a furtar, roubar e agredir pessoas — o trauma de sua infância a colocou em um caminho destrutivo, diz ela.
Ela logo ganhou uma reputação ruim — se algum integrante da gangue saísse da linha, Aliyah seria a encarregada de punir a pessoa fisicamente.
"Foram anos me machucando e machucando outras pessoas", diz ela. "Foi por causa do que eu passei — as coisas pelas quais eu não merecia passar, que estavam me afetando."
"Roubou minha infância. Foi tirada de mim muito jovem. Eu não pude recuperá-la porque as coisas só pioraram depois disso."
Tudo isso a tornava um alvo primordial para aliciamento.
Aliyah acabou conhecendo um homem mais velho na casa dos 20 anos que a convenceu de que eles estavam em um relacionamento.
"Achei que estivesse apaixonada por ele", diz ela.
Mas a realidade era muito diferente.
"Ele me fez vender drogas para ele", afirma. "Não consegui perceber que estava sendo explorada."
Depois, eles terminaram.
Rita Jacobs, assistente social em Londres, diz que esse "modelo de namorado" de exploração é o que ela observa com cada vez mais regularidade.
"Algumas garotas não têm consciência de que estão, na verdade, sendo exploradas — elas acreditam que estão em um relacionamento amoroso com um parceiro, e o que não percebem é que o parceiro é, na verdade, um agressor", explica Jacobs.
O aliciamento de Aliyah ocorreu sem uso da internet. Mas Hannah Ruschen, da ONG britânica Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças (NSPCC, na sigla em inglês), diz que na década seguinte, a tecnologia tornou ainda mais fácil atingir e explorar meninas vulneráveis.
De acordo com a instituição, 5.441 crimes de comunicação sexual com crianças foram registrados na Inglaterra e no País de Gales durante 2020/21 — um aumento de 9% em relação ao ano anterior, e um crescimento de 69% em relação a 2017/18, quando o crime foi introduzido pela primeira vez.
A NSPCC também afirma que mais de 80% das crianças que são aliciadas online são meninas — e que a maioria dessas crianças tem entre 12 e 15 anos.
"Devido à forma como há acesso constante à criança pela internet, isso pode acontecer muito rapidamente", diz Ruschen.
"Pode ir de um simples ato como uma solicitação de amizade e rapidamente evoluir para o compartilhamento de imagens online."
Aos 14 anos, Aliyah fugiu de seu lar adotivo. Ela ficou na casa de vários amigos. Sabia que tinha sido dada como desaparecida, então não podia sair.
O isolamento acabou se tornando excessivo, e ela se entregou em uma delegacia de polícia. E foi encaminhada à uma casa de reabilitação de jovens.
Ela não sabia disso na época, mas seria o primeiro passo rumo a sua mudança de vida.
Quando chegou a Bridges Lane, um prédio grande em Croydon, no sul de Londres, Aliyah tinha 15 anos.
Ela fechou a cara, como se não estivesse com medo, mas no fundo ela estava — era uma experiência nova para ela.
Em seu primeiro dia, um membro adulto da equipe estabeleceu as regras: havia toque de recolher e ela tinha que chegar em casa na hora. Todas as noites, todos os residentes se sentavam e jantavam com os cuidadores.
"Ela simplesmente ditou as regras para mim, e era disso que eu precisava", lembra Aliyah.
Ela nunca havia experimentado disciplina antes.
"Eu adorei. Só não demonstrei, porque não confiava em ninguém."
Aliyah teve um começo conturbado em Bridges Lane — se comportando mal, vendo até onde conseguia ultrapassar os limites.
"Acho que estava testando eles, mas também clamando por ajuda", diz ela.
"Eu precisava de uma família. Eu só queria chorar e abraçar alguém, e eu tive que fazer isso aqui. E eu conheci Rowena."
Rowena Miller era a assistente social designada a ela — era o primeiro trabalho de Rowena.
De alguma forma, Aliyah soube instantaneamente que Rowena, em última análise, a protegeria. Foi a primeira vez na vida que sentiu que alguém acreditava nela.
"Definitivamente, estava traumatizada com a minha vida", diz ela. "E um pouco disso ainda vive em mim agora."
"Sei como lidar com isso muito mais do que antes — porque não sabia que estava traumatizada. Antes, não sabia o que estava acontecendo."
Os efeitos da exploração podem durar anos, e muitas garotas como Aliyah nunca conseguem escapar disso. Mas Aliyah conseguiu.
"Aquela casa me acalmou", diz ela. "Eu não estava mais perdida."
Ela deixou Bridges Lane com uma nova atitude. E, aos 16 anos, descobriu que estava grávida. Foi um alerta.
"Eu não deixaria meu filho vivenciar nem mesmo um quarto do que eu passei", diz ela.
Ela sabia que ainda estava no radar do serviço social e que seu bebê seria tirado dela se transgredisse. Então compareceu a todas as reuniões para as quais foi chamada e seguiu as instruções para parar de fumar e beber.
Sete anos atrás, sua filha nasceu. Foi uma gravidez difícil, mas ela acredita que a experiência mudou sua vida.
"Se não fosse por ela, eu não estaria aqui — ela me salvou", disse Aliyah.
"Ela tem sete anos e não experimentou nada do que eu vivenciei quando tinha sete. E agradeço ao Senhor todos os dias por isso."
Hoje, Aliyah mora com sua filha no que ela descreve não apenas como uma casa, mas também como um lar.
Elas vivem uma vida normal — Aliyah trabalha, gosta de escrever poesia e está prestes a começar a estudar para se tornar uma assistente social e poder ajudar as crianças da mesma forma que Rowena a ajudou.
"Ainda estou numa jornada. Minha filha está sob meus cuidados. Sou mãe, tenho um lar, não uma casa. Eu trabalho. A comunidade da região onde moro sorri para mim todos os dias. Consegui. E estou em um lugar melhor. "
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