
Após dois anos suspensas, em decorrência da pandemia de Covid-19, as festas carnavalescas voltaram a ser realizadas na capital maranhense. Hoje, um dos traços mais importantes da cultura popular, já foi alvo de repressões no passado. Foliões no Carnaval de São Luís.
Flora Dolores/O Estado
Repleto de sincretismos e de um brilho particular, o Carnaval de rua em São Luís, é uma das mais celebradas manifestações culturais do Maranhão. O cordão das multidões, na folia, assinala a soberania da pluralidade. Das máscaras de fofão ao glitter; dos ritmos tradicionais aos hits contemporâneos.
Após dois anos suspensas, em decorrência da pandemia de Covid-19, no Brasil, as festas carnavalescas voltaram a ser realizadas no estado. O g1 Maranhão conta um pouco da história do Carnaval celebrado nas ruas da capital.
O início
As gravuras do pintor francês, Jean-Baptiste Debret, registradas no início do século XIX, captaram a gestação do Carnaval brasileiro. Nominado à época como '‘Entrudo’', a folia contava com a adesão entusiasmada das classes populares, que se divertiam jogando limões, vinagres, ovos, farinha e até urina uns nos outros. A festa antecedia o período da Quaresma.
Tamanha alegria, porém, não era bem aceita por setores de maior influência e poder financeiro na sociedade. As elites culturais e econômicas se opunham ao jeito lúdico e atípico dos brincantes – muitos, em sua maioria, negros escravizados ou libertos –, retaliando a festa à luz de estigmas racistas.
A repressão da festa, além de limitar o espaço à manifestação na cidade, também colocou restrições à valores culturais do ideário colonial. Entretanto, isso não inviabilizou a sua permanência no imaginário popular. O amido de milho em pó (conhecido, popularmente, como maisena) é parte conservada desta época, e ainda hoje é um dos itens mais usados no carnaval do Maranhão.
Carnaval na Madre Deus, em São Luís.
Divulgação.
Em entrevista ao g1 Maranhão, o jornalista e pesquisador cultural, Euclides Moreira Neto, explicou que a profunda cisão cultural entre as classes sociais foi o maior impedimento à aceitação do Carnaval de rua, entre o fim do período colonial e o início do período republicano.
“Se a gente pensar só a nível de zona urbana, que era a zona mais privilegiada, havia um preconceito muito grande de não se misturar as famílias abastadas daquela época com a plebe. Havia as Mulambadas ou os Entrudos, que eram praticados pelas famílias pobres, pelos analfabetos e desempregados, e haviam as famílias que se divertiam em organizações sociais mais estruturadas, que seriam os clubes sociais”, explicou.
Para trazer requinte à folia, desde o Brasil Imperial, se faziam nos salões dos mais ricos, bailes à moda europeia, no qual os frequentadores eram adeptos das máscaras e com isso, permitiam um certo anonimato e discrição.
Nos clubes Cassino ou Lítero Recreativo Português, a porção mais abastada da sociedade de São Luís, se entretinha à parte da efervescência havida nas ruas. O desejo em suprimir as tradições portuguesas e africanas da natureza do Carnaval não se concretizou.
Por exemplo, o ‘Zé Pereira’, com foliões à solta, nas ruas, erguendo à mão pandeiros, violões e quaisquer outros instrumentos, se manteve. Os cordões, com pierrôs, dominós e os fofões, imprimiram suas transgressões à identidade estética do Carnaval de São Luís.
O fofão
O famoso "Fofão" é personagem tradicional no carnaval de São Luís
Reprodução/TV Mirante
O personagem Fofão é figura central na diluição das diferenças entre as classes, em relação ao Carnaval. A sua figura imponente, um tanto desengonçada, coberta por chita, guizos e uma máscara pomposa é a síntese da influência cultural europeia adaptada a realidade local. Sua linguagem corporal, repleta por gestos desinibidos, danças e sons, encanta a gerações de maranhenses.
O jornalista Euclides Moreira explica que o Fofão, em meados do século XX, era a fantasia comumente adotada por pessoas desinibidas, de classes sociais mais altas, cientes do anonimato necessário para brincarem e conhecerem a forma carnavalesca mais popular.
“A prática de Fofão, por exemplo, era uma forma das pessoas mais extrovertidas, de se brincar junto às famílias menos afortunadas; de menos posse. E, também, de se visitarem de uma forma mais brincalhona”, pontuou.
Carnaval e contemporaneidade
O Carnaval de rua sofreu severas adaptações, conforme o avanço do tempo. A sobrevida do Carnaval popular, no entanto, resistiu. Além dos cordões e marchas, os corsos (passeatas realizadas desde a década de 1920, com foliões a caráter, em veículos alegóricos), originalmente festejados por pessoas de maior poder aquisitivo, foram adaptados. Parte de sua concepção reside, ainda, nas Casinhas da Roça, que transitam, até hoje, em bairros tradicionais do Centro Histórico.
O formato carnavalesco contemporâneo foi sedimentado em sua forma mais tradicional a partir dos anos 1990. Grupos carnavalescos, como o 'Bicho Terra', 'Jegue Folia' e 'Máquina de Descascar Alho' ganharam protagonismo e alteraram significativamente o cancioneiro carnavalesco da cidade. Alguns grupos de samba, por sua vez, agregaram-se a partir das reuniões de amigos e vizinhos.
Blocão do Bicho faz parte do Carnaval de São Luís
Biné Morais/O Estado
Euclides Moreira conta que o processo de consolidação das turmas caracterizava uma organização das classes médias, de grupos familiares e grupos religiosos, nos bairros da capital. A sinergia destes fatores inaugurou um novo momento no Carnaval de rua ludovicense.
“Até 1974, o Carnaval, que era posto em prática pelas turmas, era despojado, espontâneo e sem grandes regras. As pessoas fabricavam seus próprios instrumentos, suas fantasias e se uniam, por laços de amizade ou com seus familiares. Por exemplo: os Fuzileiros da Fuzarca [grupo carnavalesco tradicional, em São Luís] não são um grupo muito grande. É um grupo de 100 a 150 pessoas. Uma família, ou duas, três famílias faziam uma bela turma. Tanto é que haviam várias turmas, em vários bairros, e isso caracterizava uma organização da classe média, uma organização familiar ou religiosa, para brincar o Carnaval”, conta.
Ao g1 Maranhão, o especialista destacou, ainda, a importância do apoio político ao Carnaval festejado nas ruas. Tanto os desfiles na Passarela do Samba, situada no bairro do Anel Viário, quanto os cortejos em pontos do Centro Histórico ganharam uma nova perspectiva.
“A política começou a perceber que era importante apoiar essas manifestações populares de rua. Não só [os desfiles] de passarela, que eram as manifestações mais fortes e visíveis, mas também a rua precisava de pontos [para as brincadeiras]. A ex-governadora do Maranhão, Roseana Sarney, logo em seu primeiro mandato, começou a criar ‘Vivas’ (programa social destinado ao fomento de atividades esportivas, culturais e lúdicas) em vários bairros e estabelecer programações, não só de Carnaval, mas de São João. Isso fez com que o Carnaval popular ficasse mais organizado, com o apoio do Poder Público”, explicou.
A retomada
Multidão comparece ao primeiro dia de apresentações no circuito Beira-Mar em São Luís
Governo do Maranhão
Em meados dos anos 2000 e, mais precisamente, no início dos anos 2010, o Carnaval de rua, da Grande Ilha, passou por um novo revés. O protagonismo da capital foi fragmentado, com a popularização das festas carnavalescas, em outras cidades do estado.
Os desfiles nas passarelas também enfrentaram um breve período de dificuldades, com a redução parcial do público e desentendimentos com grupos políticos.
Houve, porém, nos últimos anos um empenho, por parte dos gestores públicos e dos setores culturais, pela revitalização carnavalesca, nas ruas da cidade. A criação de novos blocos e adesão das gerações mais jovens à folia tem ajudado a consolidar um novo formato para o Carnaval de São Luís.
Carnaval de 2019 reuniu mais de 50 mil pessoas no circuito Beira-Mar em São Luís (MA)
Paulo Soares/O Estado
Para Euclides Moreira Neto, as mudanças abrem caminho para um novo estágio no Carnaval da capital. A presença de grupos ‘parafolclóricos’, diz ele, vem introduzindo, ostensivamente, novas culturas carnavalescas, ocasionando, também, diferenciações entre o prestígio de grupos artísticos nacionais, em relação aos grupos locais.
“Há uma crise muito forte nesse momento. Apesar de o Carnaval de rua, de bandas, estar a todo vapor, os grupos considerados ‘raízes’; os grupos considerados de origem popular, estão sofrendo muito, e sofrendo as consequências pelo desprestígio do Poder Público, junto aos grupos nacionais, com cachês altos, pagos de forma adiantada, enquanto as manifestações locais são pagas depois, com muita penúria”, enfatizou.
Para o jornalista, mesmo com as alterações recentes no modelo carnavalesco de São Luís, a expressão popular local ainda se mantém.
“O povo ainda resiste: as escolas de samba, os blocos tradicionais, os blocos organizados, os blocos afros, as turmas de samba e os grupos específicos ainda resistem. Nós, em São Luís, somos vistos de uma forma diferenciada e de uma forma bastante atrativa, porque nós temos essa diversidade cultural muito grande. Se a gente não valorizar isso, a nossa tendência é enfraquecer. Só seremos, ainda, diferenciados se a gente tiver essa diferenciação, também, no trato do gestor público com as nossas manifestações; com os nossos diversos grupos culturais”, finalizou.
*Supervisionada por Rafaelle Fróes (g1 MA)
Carnaval de rua em São Luís: a retomada de uma das festas mais importantes da cultura popular
