
Artista conta em entrevista ao g1 sobre o novo trabalho, que está sendo apoiado por programa de fomento de projetos artísticos nacionalmente e que o torna aposta da música pop feita na Amazônia. Cantor paraense de Marabá, AQNO anuncia segundo álbum.
Divulgação / Ítalo Campos
Com origem de Marabá, cidade paraense onde o rio Tocantins se encontra com o Itacaiúnas, e que também conecta o Pará ao Maranhão por uma linha ferroviária, o cantor paraense AQNO conta, em entrevista exclusiva ao g1, detalhes sobre o anúncio de seu segundo álbum, novos desafios na carreira promissora que vislumbra o nível nacional e, ainda, revela como é ser um artista gay, convivendo com HIV, crescido na região de Carajás.
A "criança veada", como o próprio Diego Aquino descreve, se inspirou da conterrânea Mylla Karvalho, da antiga Companhia do Calypso, à Madonna e deu lugar a um performer e compositor extravagante, que desponta agora como um das apostas nacionais do Natura Musical, programa que fomenta projetos artísticos nacionalmente.
"É um projeto de uma bicha do interior do Pará vivendo com HIV, escrevendo, cantando, produzindo e ressignificando suas questões, afetos, desejos, num lugar artístico potente que é a Amazônia", declara.
Sobre o novo álbum, AQNO adianta que será visual, dançante e que vai mostrar "muito Pará, muito Norte, muitas Amazônias, muita música pop, muitas experimentações musicais entre orgânico e eletrônico".
No Pará, o programa anunciou que também vai fomentar trabalhos de Rawi (Santarém), a terceira edição do Festival Apoena, em Belém; e uma coletânea do selo marabaense Caquiado.
"Estamos muito orgulhosos com o resultado desse ano, contemplando projetos paraenses diversos tanto de fomentação da cena local", afirma Fernanda Paiva, head de cultural branding.
Cantor paraense de Marabá, AQNO.
Divulgação / Ítalo Campos
Leia a entrevista completa com AQNO:
Como é pra você ser um artista LGBTQIAP+, de Marabá, alcançando cada vez mais público de fora? Podes contar um pouco da tua vida nessa cidade e como isso pode ter influenciado na tua arte?
Marabá é uma cidade muito louca, de muitos atravessamentos e encontros, é onde o Rio Tocantins e o Itacaiúnas se encontram, onde o Pará e o Maranhão se conectam também através de uma linha ferroviária. Costumo brincar que é o Texas Paraense, pois a região Carajás é marcada por conflitos políticos pela terra muito violentos, (vale pesquisar "Curva do S").
Então, não é fácil ser bicha fazendo arte, música pop paraense, num lugar desses por tanto tempo (uma década) e conseguir conquistar espaço e reconhecimento artístico num lugar tomado por artistas homens heterossexuais cisgêneros cantando um gênero musical que domina o mercado, as plataformas e as rádios.
Ser artista em Marabá me ensinou a lutar muito pra fazer minha arte valer, sempre na guerrilha, sempre nos espaços mais improváveis, pois não há fomento à cultura, não há circulação de shows em teatros, não há festivais, então você tem que ir pra noite pra se "amostrar", pra se fazer artista em público e ralar muito pra viver disso.
Acredito que esse lugar de arte na guerrilha foi que me fez ter fome pelo palco, de me conectar com o público, de fazer entender minha arte, minha música, meu corpo, meus afetos, minhas questões.
Depois do primeiro trabalho, "O Retorno de Saturno", o que estás procurando para essa nova fase apoiada pela Natura? O que estás pretendendo realizar? Algum desafio novo?
O desafio agora é abrir mais caminhos pra que a música pop paraense, do Norte, tenha seu lugar de destaque nos circuitos musicais nacionais, novamente, eu diria e pra mais gente, pra mais expressões artísticas.
O território da Amazônia Legal é gigantesco e cheio de expressões culturais e artísticas diversas, tem muita gente fazendo muita coisa boa, mas tem pouca gente conseguindo mostrar isso nos festivais, nos programas de TV, conseguindo destaque em boas playlists nas plataformas de streaming, então o desafio é fazer um trabalho que envolva artistas de todos os setores artísticos do norte.
Sobretudo, é um projeto feito por corpos dissidentes da Amazônia – muito se fala sobre nossos discursos e sobre as nossas dores, mas estamos cansades, eu como PVHIV (pessoa vivendo com HIV), de girar em torno das nossas dores pra sermos enxergades.
Viver com HIV no interior do Pará me paralisou muito como artista durante um bom tempo, um tempo doloroso e de muito medo, então esse é um projeto de uma bicha do interior do Pará vivendo com HIV, escrevendo, cantando, produzindo e ressignificando suas questões, afetos, desejos, num lugar artístico potente, bem produzido, bem alinhado e que pode sim estar nos lugares de destaque da música pop brasileira, junto com outres artistas de diversas áreas, que também vivem com HIV, pessoas trans, pretas, afroamazônidas, mostrando seu potencial artístico/profissional nesse projeto.
Pode contar um pouco de algumas das suas inspirações? De que forma as enxerga no teu trabalho?
Eu sempre fui uma grande criança veada, como a gente fala entre a gente. Então esse fascínio pelo fantástico, pelas performances, os figurinos, a extravagância, sempre esteve ali na minha vida. Figuras como Madonna, Cyndi Lauper, Michael Jackson, Freddie Mercury, Ney Matogrosso, Gal, Caetano, Bethânia, Gil (aquela época ali dos Doces Bárbaros, ouro puro) já me brilhavam os olhos na infância.
Isso se intensifica na minha vivência da adolescência em contato com a música paraense e as bandas de brega, especialmente uma em específico: Companhia do Calypso (O furacão do Brasil) em sua antiga formação, que tinha como uma das cantoras principais a também artista marabaense Mylla Karvalho, que levava suas performances, seus agudos, sua extravagância e originalidade pra dentro do brega paraense, reinventando a forma de se fazer isso naquele cenário musical.
E eu me enxergo muito nisso, nessa questão de entender o palco como uma possibilidade multiartística, tem teatro, tem dança, tem moda, música – tudo cabe, tudo protagoniza e isso envolve muita gente trabalhando.
O que já pode adiantar sobre o novo álbum?
Será um álbum visual, né? Então vai ter muita história, muita moda, muita expressão artística visual. É um álbum estético. Vai ter muito Pará, muito Norte, muitas Amazônias, muita música pop, muitas experimentações musicais entre orgânico e eletrônico – é um disco ensolorado, dançante, calorento, delirante, dos trópicos. Já tô fazendo uma curadoria de músicas minhas que acho que conversam com essa energia e tema e me abrindo pra conversar, colaborar e receber criações de outres artistas.
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De Marabá, AQNO anuncia álbum visual: ‘projeto de uma bicha do interior do Pará, que produz num lugar artístico potente que é a Amazônia’
