
Acidente, ocorrido no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), completa 20 anos. Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão
REUTERS
Na tarde do dia 22 de março de 2003, um forte estrondo ecoou repentinamente nas proximidades do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Norte do Maranhão. Surpresos, os vizinhos do local não imaginavam testemunhar, naquele dia, o maior desastre espacial registrado no Brasil, há exatos 20 anos.
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A fumaça sobre a região afastou qualquer dúvida do que poderia ter acontecido: na base espacial, estava visível as cicatrizes de uma tragédia. Testemunhas, entre militares das Forças Armadas e policiais militares, disseram que o local havia ser tornado um cenário de horrores.
Após o Veículo Lançador de Foguetes (VLS-1) explodir, a alta temperatura na área levou à morte uma equipe de 21 profissionais, entre técnicos, engenheiros e cientistas, disponibilizados pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), sediado em São Paulo.
“Tristeza, né? Foram vidas perdidas ali. Vários técnicos e engenheiros levaram uma vida para ter [aquele prestígio] e para conseguir chegar onde chegaram [profissionalmente]. De repente, em um piscar de fumaça, perderam a vida”, lamenta o militar reformado José Mário Vieira Silva, que esteve presente no local, após a explosão.
A decolagem
Em princípio, a data oficial para o lançamento do primeiro satélite produzido no país seria 25 de agosto. O projeto, no entanto, passou 18 anos em desenvolvimento, entre a elaboração técnica do veículo, acompanhada, por sua vez, do progresso nas ferramentas tecnológicas disponíveis no Brasil.
Contudo, foi uma surpresa que, durante a fase de ajustes finais, o VLC ruísse, em meio ao entusiasmo que precedia o seu lançamento. Em duas outras ocasiões, o equipamento já havia registrado falhas, nos anos de 1997 e 1999.
Comoção
“Aquilo ali foi pesado”, disse, aos prantos, o militar reformado Jackson Silva Pires. Em entrevista à TV Mirante, ele e seu irmão gêmeo, Jayme Bispo, também militar, lamentaram, angustiados, a saudade dos companheiros de trabalho, mortos durante o acidente no CLA.
Desastre espacial em Alcântara completa 20 anos
“Primeiro, a gente não sabia se tinha realmente as pessoas ali debaixo daqueles escombros, debaixo daqueles [equipamentos de] ferro. Depois, veio a confirmação que boa parte do efetivo [militar] estava ali. E, como todo mundo foi remanejado para aquela área de segurança, esfriou realmente [o local]; os bombeiros começaram a colocar água e esfriou. E a gente pôde se aproximar mais, junto com os bombeiros. Foi uma dor terrível”, relembrou Bispo.
Base Espacial de Alcântara: Abertura para o Mercado Global de Microssatélites
Transformando-se em um espaço disponível para o mercado global de microssatélites, a base de Alcântara passou por mudanças. Em 2006, o governo brasileiro buscou uma parceria com a Ucrânia para impulsionar o programa espacial do país.
Entretanto, a parceria desenvolvida com o governo ucraniano findou em 2015, com um prejuízo estimado em R$ 1 bilhão. O governo brasileiro reorientou sua estratégia em 2020 ao publicar um decreto presidencial, estabelecendo um acordo com os Estados Unidos sobre salvaguardas tecnológicas, a fim de permitir a participação americana nos lançamentos de Alcântara. O acordo recebeu a aprovação dos parlamentos americano e brasileiro.
No fim de 2022, uma startup sul-coreana tornou-se a primeira cliente do setor privado a utilizar o CLA. O grupo realizou um lançamento experimental de um foguete capaz de encaminhar satélites de até 50 kg para a órbita da Terra, a 500 km de altitude. O governo brasileiro selou contratos com outras empresas interessadas no uso da Base de Alcântara para lançamentos espaciais.
Conquistas e Conflitos: 500 Lançamentos e Desafios Sociais
Desde o início das operações do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), em 1983, foram realizados 500 lançamentos bem-sucedidos. Apesar de as conquistas serem notáveis para o desenvolvimento aeroespacial do Brasil, queixas dos moradores de comunidades tradicionais lançaram luz sobre as dificuldades enfrentadas durante a ocupação dos militares na região, em meados dos anos 1980.
No início deste ano, o governo brasileiro emitiu um pedido formal de desculpas pelas graves violações registradas contra 300 famílias pertencentes a 32 comunidades tradicionais, que foram retiradas de suas terras para permitir a construção da plataforma.
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“Mas o que esse perdão [do governo brasileiro] traz de resultado? Tu pedir perdão, tu tem que melhorar a tua ação, no pedido de perdão. O Estado brasileiro pede perdão para as comunidades, mas não melhora a ação dele com as comunidades. Então, nós entendemos que esse pedido de perdão não tem sentido nenhum”, exclama, com indignação, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alcântara (STR-Alcântara), Aniceto Araújo Pereira.
Militares relembram tragédia na Base de Alcântara: ‘Foi uma dor terrível’
