Moléculas pesquisadas para tratar Chagas eliminam novo coronavírus

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Resultados de laboratório permitem que pesquisa avance para a fase pré-clínica

Resultados de laboratório permitem que pesquisa avance para a fase pré-clínica
Henrique Fontes/IQSC-USP

Cerca de dez moléculas que estão sendo estudadas para o combate à doença de Chagas se mostraram 100% eficazes para tratar células infectadas pelo novo coronavírus. A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo (IQSC-USP), com financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Em testes de laboratório, os cientistas observaram que, além de eliminarem integralmente o Sars-CoV-2, as substâncias não geraram efeitos adversos para as células. Os resultados obtidos até o momento permitem que a pesquisa avance para a fase pré-clínica, em que os compostos deverão ser testados em animais.

Os especialistas acreditam que as moléculas conseguem interromper o ciclo biológico do novo coronavírus nas células inibindo uma de suas principais enzimas: a Mpro, que atua para facilitar a liberação do RNA do vírus, processo fundamental para que ele se replique no organismo.

Segundo o coordenador do estudo, o professor Carlos Alberto Montanari, as moléculas foram testadas em células de câncer de pulmão humano infectadas pelo Sars-CoV-2. Alguns dos compostos conseguiram eliminar totalmente o novo coronavírus de células que apresentavam carga viral baixa e moderada. Uma das substâncias, em especial, também foi eficaz contra carga viral elevada, apresentando resultados similares aos do fármaco que está sendo desenvolvido pela Pfizer e se encontra na fase clínica de estudos.

Origem

As moléculas do IQSC-USP são estudadas há anos pelo Grupo de Química Medicinal e Biológica na busca por tratamentos efetivos contra a doença de Chagas. No caso da enfermidade tropical, em testes realizados com camundongos, as substâncias utilizadas pelos pesquisadores já apresentaram resultados promissores, com prova de conceito estabelecida, para inibir a função bioquímica da cruzaína, enzima responsável por manter ativo no corpo humano o Trypanosoma cruzi, parasita causador da doença.

Por meio do uso de técnicas de inteligência artificial e aprendizado de máquina, os pesquisadores identificaram que a cruzaína possui semelhanças estruturais com a Mpro, o que levou os especialistas a aplicar as substâncias contra o Sars-CoV-2.

De acordo com Montanari, o conhecimento prévio dos compostos trabalhados no grupo agilizou o estudo contra o novo coronavírus: “Em menos de dois anos, já conseguimos criar condições para avançar com essas moléculas para testes in vivo, muito por conta de já termos um longo histórico de trabalho com essas substâncias, o que mostra a importância de valorizar a ciência básica. Além disso, precisamos desenvolver massa crítica e mão de obra nacionais para sermos independentes no desenvolvimento de fármacos e de insumos”, afirma o docente.

No momento, os cientistas estão à procura de novas parcerias e investimentos para que o estudo tenha continuidade e comece a etapa de testes com animais.

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