
Ailton Krenak participa do Festival LED em Belém.
NayJinknss / Festival LED
O filósofo, ambientalista e imortal da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak, defendeu uma mudança profunda na forma como o Brasil compreende a educação. Na palestra em formato da entrevista "Um exercício para sonhar o amanhã" no Festival LED – Luz na Educação, nesta terça-feira (2) em Belém, Krenak ele falou sobre a presença cada vez maior das telas no ensino. “Por mim, tela não entrava em sala de aula”.
Para ele, o uso excessivo de dispositivos digitais causa um “abismo entre a experiência de estar vivo e o simples ato de olhar imagens sem noção”.
“Ensinar deve ser um ato de afeto e criatividade, e não uma ferramenta de reprodução do mercado. Não podemos deixar a infância ser capturada pelo imaginário tecnocrata”, disse.
Para Krenak, o ensino tem sido moldado por uma lógica produtivista e corporativa que afasta as crianças da experiência criadora da vida. “Paulo Freire já dizia para evitar uma educação que nos sequestra da experiência criativa e nos transforma em pequenos robozinhos”.
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O pensador destacou que o primeiro ninho da educação é a família, onde nascem as relações afetivas que sustentam o aprendizado. “Estamos terceirizando a experiência de educação afetiva. Ofertamos muito pouca experiência criativa no sistema formal”, afirmou.
Krenak defende que a tecnologia seja entendida como uma extensão da natureza humana, e não como um aparato de consumo. “A mais bela tecnologia é a que a Mãe Terra produz. Nós somos produtos da Terra, a mais fina de todas as tecnologias”, afirmou.
Ele também criticou a cultura do consumo, que associa felicidade à compra de novos produtos. “Vivemos em um mundo que ensina as novas gerações a consumir coisas e chama isso de sonho. Mas sonhar é outra coisa. É buscar sentido no mundo, é sonhar com os outros”, refletiu.
Pertencimento e território
Krenak também falou sobre o sentido de pertencimento e a desconexão entre as pessoas e o território. Para ele, a Amazônia é símbolo da abundância natural que o Brasil insiste em empobrecer.
“Um lugar com comida em abundância, nós destruímos o rio, a floresta, construímos barragens e produzimos pobreza”, criticou, lembrando que o modelo de desenvolvimento atual é o mesmo que incentiva a migração e o consumo de fora, em vez de fortalecer o local.
Para o filósofo, a própria produção da pobreza é uma tecnologia do capitalismo, que reduz a educação à formação de mão de obra. “Essa escola que prepara as crianças para serem caixas de supermercado devia ser fechada. Precisamos correr o risco de ser criativos”, provocou.
Um futuro para sonhar
Ao encerrar a fala, Krenak relacionou o futuro da educação a uma transformação ética e ecológica. “Se a gente melhorar, a gente para de estragar o mundo”, disse. Ele destacou que o conceito de educação varia segundo os contextos culturais e sociais, e que, em países desiguais, ensinar também significa preparar cidadãos conscientes de seus direitos.
O líder indígena lembrou que, aos 30 anos, participou da Constituinte que incluiu o capítulo 231 da Constituição de 1988, que reconhece os direitos dos povos indígenas no Brasil. “Aquele rapaz tinha um sonho de inventar o mundo, de liberdade e autonomia”, recordou.
Para Krenak, educar é um ato de inventar mundos possíveis, e sonhar é um caminho para restabelecer o sentido humano diante das crises do planeta. Ao fim, ele foi aplaudido de pé e reforçou a reivindicação por mais demarcação de terras indígenas no Brasil.
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