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O misterioso vírus ‘impostor’ que nos protege da varíola dos macacos  

Imunizante é feito a partir de um vírus desaparecido que ninguém jamais conseguiu identificar — mas como isso aconteceu? E será que ainda pode existir na natureza? O misterioso vírus 'impostor' que nos protege da varíola dos macacos
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Na virada do século 19, um pânico bizarro tomou conta de Londres. Panfletos informativos foram distribuídos. Livros alarmistas foram escritos. Surgiram tratamentos duvidosos. A população foi alertada, em massa, que estava em perigo — com o risco iminente de… se transformar em vacas-humanas.
Um pequeno — e controverso — grupo de médicos estava fomentando preocupações sobre um procedimento pioneiro, que incluía pegar um vírus que infectava o gado com varíola bovina e usá-lo para proteger as pessoas contra varíola.
Varíola dos macacos: veja lista de sintomas e como se proteger
Apesar de óbitos em Brasil e Espanha, mortes pela doença são raras; entenda
A técnica foi chamada de “vacinação”, nome que deriva do termo em latim “vaccinus”, ..

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Imunizante é feito a partir de um vírus desaparecido que ninguém jamais conseguiu identificar — mas como isso aconteceu? E será que ainda pode existir na natureza? O misterioso vírus 'impostor' que nos protege da varíola dos macacos
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Na virada do século 19, um pânico bizarro tomou conta de Londres. Panfletos informativos foram distribuídos. Livros alarmistas foram escritos. Surgiram tratamentos duvidosos. A população foi alertada, em massa, que estava em perigo — com o risco iminente de… se transformar em vacas-humanas.
Um pequeno — e controverso — grupo de médicos estava fomentando preocupações sobre um procedimento pioneiro, que incluía pegar um vírus que infectava o gado com varíola bovina e usá-lo para proteger as pessoas contra varíola.
Varíola dos macacos: veja lista de sintomas e como se proteger
Apesar de óbitos em Brasil e Espanha, mortes pela doença são raras; entenda
A técnica foi chamada de "vacinação", nome que deriva do termo em latim "vaccinus", que significa "da vaca" — e as primeiras evidências sugeriam que era extraordinariamente eficaz, protegendo 95% das pessoas de uma infecção que geralmente matava cerca de 30% de suas vítimas e desfigurava permanentemente a maior parte do resto.
Havia até mesmo uma expectativa inicial de que pudesse acabar com a doença para sempre.
Mas não demorou muito para os primeiros céticos em relação à vacina aparecerem.
Em particular, estes médicos dissidentes estavam convencidos de que o "humor bestial" — o vírus da varíola bovina (cowpox) — não tinha lugar no corpo humano.
Entre as alegações mais absurdas, estava a insinuação de que as crianças vacinadas haviam começado a desenvolver características bovinas, como as manchas das vacas leiteiras, ou que corriam risco de ter pensamentos semelhantes aos de bois.
Um proeminente defensor destas teorias disse que as mulheres vacinadas podiam começar a sentir atração por touros.
O fato é que os primeiros céticos em relação às vacinas tinham entendido tudo errado. É claro que a nova técnica não transmitia a essência bovina para pessoas — o cowpox era apenas um vírus normal e, nos séculos seguintes, levaria à extinção da varíola. Mas também pode nunca ter tido nada a ver com vacas.
Na verdade, até hoje ninguém sabe de onde veio o vírus que erradicou a varíola.
No entanto, este micróbio misterioso ainda está sendo usado — inclusive nas vacinas que estão sendo aplicadas atualmente contra a varíola dos macacos, que agora foi declarada uma emergência de saúde global pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Amostras das primeiras vacinas contra a varíola ainda podem ser encontradas em museus ao redor do mundo
SCIENCE MUSEUM, LONDON
Depois de ser encontrado principalmente na África nas últimas cinco décadas, o vírus causador da varíola dos macacos (monkeypox) começou a se espalhar pelo mundo em maio de 2022.
Para combatê-lo, os cientistas recorreram a duas vacinas usadas anteriormente contra a varíola — ACAM2000 e JYNNEOS.
Estas são as únicas licenciadas nos EUA para proteger contra o vírus emergente (a União Europeia também aprovou recentemente a versão JYNNEOS).
Ambas são excepcionalmente seguras e consideradas altamente eficazes, mas também fazem parte do enigma.
Por mais de um século, a comunidade científica supôs amplamente que a vacina contra a varíola foi feita a partir do vírus cowpox — esta é a explicação ainda encontrada em muitos sites e salas de aula em todo o mundo.
Mas em 1939, quase 150 anos após a invenção da vacinação, testes moleculares revelaram que não. Mais recentemente, o sequenciamento genético confirmou esta conclusão.
Em vez disso, as vacinas que foram usadas para erradicar a varíola, e aquelas em uso hoje contra a varíola dos macacos, são baseadas em um vírus desconhecido que ninguém conseguiu identificar — um patógeno "fantasma" que só foi encontrado na forma de vacina.
Apesar de uma busca de 83 anos, ninguém sabe como, por que ou exatamente quando este "impostor" apareceu na vacina contra a varíola, ou se ainda existe na natureza.
Apenas uma coisa é clara: milhões de pessoas que sobreviveram ao reinado da varíola devem suas vidas à sua existência.
Sem ele, o atual surto de varíola dos macacos provavelmente se espalharia ainda mais rápido.
"Por muitos anos, até 1939, as pessoas supunham que o que chamamos de (vírus) vaccinia, da vacina contra a varíola, era o mesmo que cowpox", diz José Esparza, virologista e membro do Instituto Robert Koch, na Alemanha.
"Descobriu-se então que eram diferentes. E, desde então, aceitamos que o cowpox é um vírus, e o vaccinia é outro vírus de origem desconhecida."
Como isso aconteceu? De onde este vírus pode ter vindo? E será que um dia vamos ser capazes de encontrá-lo em seu hospedeiro natural?
Uma aflição bem inglesa
O homem que recebe universalmente o crédito por inventar a vacinação é Edward Jenner, um cirurgião que anunciou sua descoberta em 1796.
A história habitual de como ele fez isso é um conto atraente que envolve belas ordenhadoras de leite, momentos "eureka" e experimentos eticamente questionáveis.
Mas acontece que não é totalmente preciso.
A versão mais conhecida é mais ou menos assim. Jenner notou que as ordenhadoras de leite geralmente tinham a pele excepcionalmente lisa, sem as marcas de varíola que afligiam grande parte da população — até 85% daqueles que se recuperavam da varíola podem ter ficado com um número significativo de cicatrizes características da doença no rosto.
Ele percebeu que as ordenhadoras que contraíam varíola bovina, que é mais branda, durante seu ofício, eram menos propensas a pegar varíola.
Para provar isso, ele infectou um menino de oito anos com varíola bovina, e depois o expôs intencionalmente à varíola para ver se ele ainda era suscetível e ficaria doente (por sorte, ele não era e sobreviveu).
Na verdade, a descoberta fortuita aconteceu quase três décadas antes, por meio de um médico do interior que acabara de se mudar para a cidade mercantil de Thornbury, em Gloucestershire.
Lá, John Fewster estabeleceu a prática da "variolação" — um antigo método para proteger as pessoas contra a varíola, que consistia em esfregar uma pequena quantidade de pus proveniente de uma pústula de varíola em uma incisão no braço de um indivíduo não infectado.
O procedimento havia sido usado em toda a Ásia, da Índia ao Tibete, durante séculos — mas era amplamente desconhecido para os europeus até que Lady Mary Wortley Montagu tomou conhecimento do mesmo em Istambul (então Constantinopla), e o popularizou no Reino Unido do século 18.
Se corresse bem, a técnica geralmente gerava uma única marca de varíola no local da infecção, o que indicava que o sistema imunológico da pessoa havia aprendido a reconhecer o vírus.
Se desse errado, e a infecção se espalhasse — como em cerca de 2% a 3% dos casos —, o paciente geralmente morria.
Mas em Thornbury, vários moradores não reagiram à "variolação" — nenhuma marca de varíola foi gerada e, apesar das repetidas tentativas, o procedimento não teve sucesso. Fewster estava perplexo.
Até que, um dia, um agricultor explicou que havia sido infectado recentemente com varíola bovina — e já tinha imunidade.
"A varíola bovina estava confinada em grande parte ao sudoeste do Reino Unido [na época]", diz o patologista aposentado Arthur Boylston, autor do livro Defying Providence: Smallpox and the Forgotten 18th-Century Medical Revolution (Desafiando a Providência: a Varíola e a Revolução Médica Esquecida do Século 18, em tradução livre).
Ele conta que nunca foi particularmente comum — surtos só ocorriam a cada poucos anos — e, embora os agricultores da região geralmente estivessem cientes de que existia, apenas a geração mais jovem havia associado à proteção contra a varíola.
Acredita-se que esta sabedoria popular acabou chegando a Jenner, que frequentava a mesma sociedade médica que Fewster.
Em 14 de maio de 1796, Jenner pegou então um pouco de pus de uma marca de varíola bovina da mão de uma ordenhadora de leite que havia contraído a doença de uma vaca chamada Blossom. O material coletado foi usado para vacinar o menino de oito anos.
Seis semanas depois, a criança foi "variolada" e, quando não reagiu desenvolvendo uma pústula, Jenner percebeu que a técnica pioneira havia funcionado.
"O que eles estavam observando é o que sabemos hoje, que todos os poxvírus produzem imunidade entre espécies", explica Esparza.
Mas, em 1939, até mesmo esta versão dos acontecimentos esbarrou numa questão.
Quando os cientistas testaram os anticorpos do vírus cowpox (da varíola bovina) na vacina contra a varíola que supostamente era feita a partir dele, descobriram que no fim das contas não eram iguais — eram dois vírus totalmente diferentes.
Um grande grupo
O que acontece é que os humanos não estão sozinhos em sua batalha contra os poxvírus.
Esta vasta e abrangente família inclui dezenas de vírus, cada um com seu próprio nicho em uma ampla variedade de animais — até mesmo os escaravelhos apresentam suas próprias versões.
Dentro dela, há o grupo dos ortopoxvírus, ao qual pertence o vírus da varíola, que poderia ser chamada de varíola humana.
No mesmo grupo, estão outros vírus de mamíferos, incluindo horsepox (cavalos), camelpox (camelos), buffalopox (búfalos), rabbitpox (coelhos), mousepox (camundongos), monkeypox (macacos) e raccoonpox (guaxinim).
O vaccinia é apenas mais um vírus membro deste grupo — que foi usado para inocular quase todos os nascidos antes do início da década de 1970 contra a varíola, até que a vacinação fosse interrompida.
Mas encontrar seu ancestral selvagem entre os diversos ortopoxvírus mostrou-se algo complicado.
Um possível candidato é o horsepox.
No artigo original de Jenner sobre vacinação, ele descreve suas suspeitas de que a varíola bovina pode, na verdade, se originar em cavalos — nos quais é conhecida como "graxa".
Em um caso, o jardineiro do Conde de Berkeley notou que os cavalos com os quais trabalhava estavam contraindo a doença e, mais tarde, a passaram acidentalmente para o rebanho de vacas que ele estava ordenhando — e para ele próprio.
Vinte e cinco anos depois, o mesmo homem apareceu com a família para uma sessão de "variolação" conduzida por Jenner.
Não funcionou — embora o procedimento tenha sido repetido várias vezes, nada aconteceu.
Mais tarde, quando toda a família do homem adoeceu com varíola, ele "não sofreu qualquer dano por exposição ao contágio".
Sem saber se estava trabalhando com cowpox ou horsepox, ou um vírus que rotineiramente pula entre ambos, Jenner seguiu em frente.
Após inventar a vacina, ele dedicou o resto de sua vida a distribuí-la e aperfeiçoar as formas de aplicação.
Mas os surtos de cowpox eram raros e, à medida que a técnica ganhava popularidade, encontrar material infeccioso suficiente se tornou um grande desafio.
Após a primeira experiência de vacinação de Jenner, ele não pôde fazer mais pesquisas por dois anos, quando a doença desapareceu temporariamente da região.
As primeiras tentativas subsequentes de Jenner de vacinação foram baseadas na transferência do vírus protetor de pessoa para pessoa — cada novo paciente infectado se tornava um estoque de pus que poderia ser usado para vacinar outra pessoa.
Não havia etapas de purificação e nenhum suprimento refrigerado de ampolas de vacina.
Os primeiros céticos em relação à vacina do mundo estavam preocupados com a inoculação do vírus causador da varíola bovina
WELLCOME COLLECTION
Um método mais sofisticado envolvia embeber pedaços de linha em material infeccioso e depois secá-lo — isso possibilitou espalhar rapidamente a vacina para os cantos mais distantes do planeta.
Em 1800, Jenner enviou uma linha revestida de pus em uma viagem de 3.656 km até Newfoundland, no Canadá, onde foi usada com sucesso para vacinar centenas de pessoas.
Infelizmente, estas técnicas não eram totalmente confiáveis ​​— e se a cadeia de transmissão fosse quebrada, todo o processo teria que recomeçar do início. Isso significava encontrar uma nova vaca com vírus.
Uma solução era simplesmente ampliar a base animal envolvida, e os cavalos eram uma segunda escolha óbvia.
Logo ficou claro que o poxvírus colhido diretamente de cavalos funcionava tão bem quanto o de vacas — tão bem que, em 1817, Jenner abandonou a "vacinação" e voltou toda sua atenção para a "equinação" (que seria a inoculação com horsepox).
E aqui suas redes de distribuição — assim como as de outros que dependiam do poxvírus de cavalos —começaram a ter impacto.
Em 1817, Jenner enviou um estoque de linfa, fluido infeccioso retirado de indivíduos equinados — que na época estava sendo preservado em lancetas de ouro, em vez de linhas secas — para o National Vaccine Establishment.
A partir deste centro em Londres, foi enviado para muitos outros médicos.
Poderia ter sido aí que a inoculação à base de cowpox começou a ser substituída por uma feita a partir de horsepox? Ou o vírus sempre foi o horsepox que havia sido passado para as vacas?
Reviravolta inesperada
Embora tenham se passado séculos desde as primeiras vacinações contra a varíola, ainda há relíquias dos antigos vírus usados ​​escondidas em museus e coleções ao redor do mundo — principalmente na forma de cascas de feridas e linfas de kits de vacinação.
Em 2017, uma equipe internacional de cientistas liderada por Esparza descobriu uma vacina que havia sido fabricada na Filadélfia em 1902.
Os ortopoxvírus possuem genomas extraordinariamente grandes que consistem em DNA de cadeia dupla, e os pesquisadores conseguiram reunir um genoma quase completo a partir da amostra histórica que tinham.
"Estas vacinas são mantidas em temperatura ambiente há mais de 100 anos", diz Esparza.
Segundo ele, só foi possível sequenciar o material genético degradado por causa das sofisticadas técnicas modernas.
Versões mais antigas da vacina contra a varíola, como a usada para erradicar o vírus no século 20, geralmente deixavam as pessoas com uma pequena marca no braço
ALAMY
O que os cientistas descobriram reforçou a suspeita de longa data sobre a confusão em relação ao vírus da vacina : não havia evidência de cowpox na cepa que eles testaram e, em vez disso, era intimamente ligada a um vírus horsepox identificado na Mongólia em 1976.
"Esta é a única sequência que temos para horsepox — a única", diz Esparza.
"E é muito parecido."
Desde então, a equipe sequenciou muitas outras vacinas históricas.
"Em 31 amostras, não encontramos cowpox em nenhuma delas", diz Esparza.
Outro estudo concluído por uma equipe diferente encontrou resultados semelhantes. Além do horsepox, as vacinas — da Filadélfia de meados do século 19 — apresentavam boa compatibilidade para um vírus endêmico do Brasil, o vírus Cantagalo, que causa surtos periódicos em bovinos.
Mais uma vez, não era cowpox — acredita-se que tenha descendido de uma vacina contra a varíola que escapou para a natureza há muitos anos.
Tudo indica que a maioria destas vacinas do século 19 e início do século 20 realmente foram feitas a partir de horsepox — ou o cowpox nunca foi usado, ou foi substituído por seu primo equino notavelmente rápido.
Mas este não é o fim do enigma.
"Há um mistério que ainda não resolvemos", diz Esparza.
Sua equipe descobriu recentemente evidências —ainda não publicadas — de uma mudança radical nas vacinas usadas para prevenir a varíola, que aconteceu por volta de 1930.
"Estamos investigando isso agora", afirma.
Quando a equipe sequenciou as vacinas mais recentes contra a varíola, descobriu que nesta época elas passaram por uma transformação.
Em vez de serem compostas essencialmente do vírus horsepox, foram baseadas principalmente no vírus misterioso encontrado nas vacinas atuais.
"A [sequência] principal que costumava ser do vírus horsepox até 1930 mudou para o moderno vaccinia, que também é uma sequência de ortopoxvírus, mas não sabemos a origem deste vírus. Não é cowpox", explica Esparza.
Mas como substituiu a vacina anterior? De quê podia ser feita? E será que ainda poderia existir na natureza?
Um vírus desaparecido
Na opinião de Esparza, o salto repentino de um tipo de vacina contra a varíola para outro provavelmente se deve à forma como as vacinas foram distribuídas.
"Nos primeiros 100 anos [de vacinas], elas eram mantidas de braço em braço em humanos", afirma Esparza.
"Em 1860, cientistas na Itália e na França introduziram a vacina animal — em vez de passar o vírus de humano para humano, eles descobriram que poderiam colocá-lo de volta nas vacas e mantê-los nas vacas."
Posteriormente, este sistema de produção em massa se expandiu para incluir outros animais, como ovelhas, cavalos e burros.
Em algum momento, um vírus de um animal desconhecido começou a ser usado como vacina contra a varíola.
Não há registros de quem fez isso, ou de quando, por que ou como fizeram isso, mas é possível que tenha sido apenas um acidente — alguém coletou o que pensava ser cowpox ou horsepox de um animal de fazenda, quando era, na verdade, um "impostor" aleatório não identificado.
Como funcionou bem, ninguém percebeu.
Algum tempo depois de 1930, este vírus misterioso se tornou a base da vacina mais comum — e, em meados do século 20, havia centenas de versões diferentes circulando pelo mundo.
Em 1966, a OMS anunciou a campanha de erradicação da varíola e escolheu apenas seis cepas como base para as vacinas que seriam usadas para atingir este objetivo.
A cada década que passava, a dominação do vírus desconhecido se tornava mais arraigada.
Mas onde ele está agora — e por que ninguém nunca encontrou o hospedeiro natural do vaccinia?
Embora o surgimento da varíola dos macacos possa parecer indicar que os poxvírus estão prosperando, por muito tempo, vários estiveram altamente ameaçados de extinção — e o causador da varíola pode não ser o único que desapareceu.
Acredita-se que o horsepox já causou surtos regulares em partes da Europa — pode até ter sido comum —, mas não é identificado na natureza desde 1976, quando cavalos começaram a adoecer com lesões e sintomas semelhantes ao da febre na Mongólia.
Acredita-se que melhores práticas de criação animal e melhores diagnósticos podem tê-lo levado à extinção.
"O horsepox basicamente desapareceu da Europa no início do século 20", diz Esparza, explicando que o vírus misterioso usado nas vacinas modernas contra a varíola pode ter tido o mesmo destino.
"Nós especulamos sobre esta possibilidade."
No entanto, Esparza lamenta que não tenham sido feitas pesquisas suficientes.
Uma vez que o vírus causador da varíola foi erradicado, o interesse em estudar seus parentes acabou — e hoje são poucos os grupos de pesquisa que buscam identificar novos poxvírus, como aquele que pode ser o ancestral do vaccinia.
"Então, talvez o atual surto [de varíola dos macacos] estimule mais ciência… significando mais concorrência por trabalho", ri Esparza.
Um novo uso
Na verdade, hoje o vírus misterioso é mais útil do que nunca.
A varíola dos macacos é um parente próximo da varíola geralmente encontrada na África central tropical, onde tende a infectar roedores e primatas não humanos.
É mais difícil de pegar do que sua prima e é transmitida principalmente por contato próximo com fluidos corporais ou objetos contaminados, como roupas de cama.
Diferentemente da varíola, a varíola dos macacos raramente é mortal, mas há relatos de casos mais graves que se assemelham a infecções sexualmente transmissíveis.
Geralmente causa febre, seguida de lesões que podem ter pus e ser extremamente dolorosas.
O vírus monkeypox foi descoberto pela primeira vez em 1970 e, até recentemente, as infecções estavam confinadas principalmente à África.
Mas, em maio de 2022, começou a se espalhar pelo mundo — uma disseminação sem precedentes.
Para desacelerar a propagação, muitos países encomendaram milhões de doses de duas vacinas.
Ambas são "descendentes diretas" do mesmo vírus enigmático que se tornou a vacina dominante contra a varíola na década de 1930.
Em primeiro lugar, há a vacina JYNNEOS, desenvolvida pela empresa de biotecnologia Bavarian Nordic.
Esta versão nova e mais segura da vacina antiga contra a varíola foi desenvolvida por acidente na década de 1960, quando um cientista notou que seu estoque de uma cepa turca do vaccinia — que vinha cultivando em embriões de galinha há anos — havia sofrido uma mutação.
O vírus ankara vaccinia modificado (MVA), que mais tarde se transformou na vacina JYNNEOS, ficou tão alterado que, embora ainda pudesse fazer mais cópias de si mesmo em embriões de galinha, perdeu a capacidade de se replicar em humanos.
Os pesquisadores perceberam rapidamente que isso o tornaria mais seguro para uso em imunizações — acredita-se que a versão antiga tenha salvado de 150 a 200 milhões de vidas apenas entre 1980 e 2018, mas em casos raros pode levar a infecções que se espalham pelo corpo. Esta nova vacina representou uma alternativa menos arriscada.
Inicialmente, o MVA não foi amplamente utilizado. Na década de 1960, ainda não estava claro se a vacina era tão eficaz quanto a versão anterior, por isso foi administrada principalmente em pessoas imunocomprometidas como uma dose extra.
Mas experimentos em outros animais e militares do Exército sugeriram desde então que é provável que funcione — por isso está em alta demanda hoje.
A ideia de que a vacina contra a varíola foi baseada no vírus causador da varíola bovina existe há séculos
WELLCOME COLLECTION
A outra vacina, ACAM2000, é uma opção menos cotada no atual surto de varíola dos macacos.
Desenvolvida pela primeira vez no início dos anos 2000 como uma alternativa às cepas de vaccinia usadas para erradicar a varíola, foi armazenada por vários países ao redor do mundo, incluindo os EUA e o Reino Unido, para emergências, como um ataque de varíola por terroristas.
Há relatos recentes de que a ACAM2000 está sendo usada contra a varíola dos macacos, mas ainda não está licenciada para isso.
Embora seja segura para a grande maioria das pessoas, apresenta alguns riscos — o vírus pode fazer cópias de si mesmo no corpo humano, por isso não é adequada para indivíduos imunocomprometidos.
Em julho de 2022, o governo dos EUA encomendou quase sete milhões de doses de ambas as vacinas contra a varíola para serem entregues no próximo ano, e agora há uma escassez global.
A ironia é que acredita-se que o surto de varíola dos macacos só foi possível porque suspendemos as vacinações contra a varíola.
"O que vemos agora com a varíola dos macacos é muito interessante", diz Esparza.
"A varíola foi declarada erradicada em 1980. E desde então, a vacinação contra a varíola parou na maioria dos países, e a imunidade da população contra todos os ortopox [vírus] diminuiu. E é isso que provavelmente está por trás da eclosão da varíola dos macacos no mundo."
Outros vírus podem estar aproveitando a mesma oportunidade.
Embora a varíola bovina — a doença em si desta vez, não a versão com "crise de identidade" usada nas vacinas — agora seja rara em gado, ainda é endêmica em roedores em todo o mundo.
E desde que a vacinação em massa contra a varíola foi interrompida no início da década de 1970, cada vez mais casos estão sendo relatados em crianças.
Hoje, as pessoas são mais propensas a contrair varíola bovina de ratos ou gatos que, por sua vez, pegam a doença de roedores na natureza — em um caso inusitado, ela foi adquirida de um elefante de circo.
A maioria das infecções é leve, produzindo lesões nas mãos ou no rosto — e, diferentemente da varíola dos macacos, ainda não está sendo transmitida de pessoa para pessoa.
Mas foram registradas mortes.
E, assim como a varíola dos macacos, o aumento dos casos tem sido associado ao fim da vacinação generalizada contra a varíola.
Alguns especialistas chegaram ao ponto de descrever a varíola bovina como uma ameaça emergente à saúde.
Por isso, o vírus vaccinia ainda é muito procurado.
Mas será que algum dia vamos saber de onde veio o poxvírus favorito da humanidade? Esparza é cético.
"Ainda temos mais perguntas do que respostas", afirma.
Mas o virologista insinua que ele e seus colegas fizeram algum avanço — e vão divulgar detalhes mais tentadores sobre o mistério nos próximos meses.
Seja lá qual for sua origem, sem a vacina contra a varíola, há pouca dúvida de que o mundo seria um lugar radicalmente diferente — ainda lutando contra uma antiga praga que desfigurava e matava pessoas há milênios.
E assim como no início do século 19, temos muito mais medo de evitar a imunização do que de nos transformar em vacas-humanas…
Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-62319031

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Já ouviu falar de depressão tardia? Descoberta de estudo da Unicamp pode auxiliar prevenção e tratamento

Pesquisa identificou que alterações em 75 proteínas do sangue têm relação com a doença. Enfermidade acomete pessoas com mais de 55 anos e é confundida com outras questões de saúde. Pesquisa da Unicamp identifica fatores que podem ajudar no diagnóstico da depressão tardia
Uma pesquisa da Unicamp identificou que a alteração nos índices de 75 proteínas presentes no sangue têm relação com a depressão tardia – doença que acomete pessoas com 55 anos ou mais. A descoberta pode prevenir a doença, ajudar no diagnóstico e também no tratamento da enfermidade.
Por afetar pessoas mais velhas, esse tipo de depressão pode ser confundida com outras questões de saúde, como menopausa ou alteração na tireoide, explica a psicóloga Ana Silvia Rennó.
Isso dificulta o diagnóstico. “Geralmente as pessoas tendem a olhar a causa física, deixando a causa emocional de lado”, informou Rennó.
Foi o que ocorreu com a aposentada Angélica Petry, que teve os sintomas associados à menopausa e só descobriu a depressão..

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Pesquisa identificou que alterações em 75 proteínas do sangue têm relação com a doença. Enfermidade acomete pessoas com mais de 55 anos e é confundida com outras questões de saúde. Pesquisa da Unicamp identifica fatores que podem ajudar no diagnóstico da depressão tardia
Uma pesquisa da Unicamp identificou que a alteração nos índices de 75 proteínas presentes no sangue têm relação com a depressão tardia – doença que acomete pessoas com 55 anos ou mais. A descoberta pode prevenir a doença, ajudar no diagnóstico e também no tratamento da enfermidade.
Por afetar pessoas mais velhas, esse tipo de depressão pode ser confundida com outras questões de saúde, como menopausa ou alteração na tireoide, explica a psicóloga Ana Silvia Rennó.
Isso dificulta o diagnóstico. "Geralmente as pessoas tendem a olhar a causa física, deixando a causa emocional de lado", informou Rennó.
Foi o que ocorreu com a aposentada Angélica Petry, que teve os sintomas associados à menopausa e só descobriu a depressão após a filha se esforçar para que ela pedisse ajuda.
"Eu tive pânico e daí era muita irritabilidade, muito choro. Um dia minha filha falou: 'mãe, chega. Vamos para um psiquiatra, vamos procurar um profissional, você precisa de ajuda'. No início eu resisti um pouco", admite.
"Depois que eu comecei a fazer tratamento, que tomo remédio até hoje, é outra qualidade de vida, sabe?", completa a aposentada.
As descobertas da Unicamp
Daniel Martins de Souza, pesquisador da Unicamp
Reprodução/EPTV
O estudo, que durou um ano e meio e acompanhou 50 pacientes, identificou nos portadores da depressão tardia a alteração nas 75 proteínas. Essas mudanças nas taxas não foram encontradas nas pessoas livres da doença.
"Nós coletamos sangue de pacientes com depressão tardia e a gente procurou alterações palpáveis, facilmente detectáveis no sangue dessas pessoas. Isso então pode ser um indicativo, pode ajudar num eventual diagnóstico dessa doença ou até predizer que alguém vai ter esse enfermidade", explicou o professor da Unicamp Daniel Martins de Souza.
"E também ajudar usando essas proteínas como alvos para novas terapias (tratamentos)", completou o pesquisador.
Estudo da Unicamp descobre proteínas ligadas à depressão tardia
Reprodução/EPTV
A pesquisa apontou, ainda, que seis dessas proteínas estão relacionadas com a forma mais grave da enfermidade.
"Em relação aos pacientes que não tinham depressão, elas estavam ou aumentadas ou diminuídas. Então dependendo do quão mais grave era essa depressão, a gente via que o nível dessas seis proteínas ou aumentava, ou diminuía proporcionalmente à gravidade", afirmou a pesquisadora da Unicamp, Lícia Costa.
Quais os próximos passos?
Com a descoberta das proteínas relacionadas à depressão, Daniel Martins de Souza analisa que é hora de se debruçar sobre os medicamentos que podem ajudar a equilibrar a taxa delas no sangue.
"Essas proteínas têm um papel biológico no organismo. Sabendo mais sobre a biologia da depressão tardia, esses resultados podem ser usados para reaproveitar eventuais medicamentos que toquem na produção dessas proteínas ou até no que a biologia que estas proteínas estão envolvidas".
VÍDEOS: destaques da região de Campinas

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O risco de Alzheimer precoce em pessoas com Síndrome de Down

Pacientes enfrentam processo de envelhecimento acelerado e casos de demência podem surgir entre os 35 e 40 anos Nos últimos anos, a médica norte-americana Tara Goodwin passou a se dedicar exclusivamente a pacientes adultos com Síndrome de Down. Membro da Global Down Syndrome Foundation, militante dos direitos desse grupo, e ela própria mãe de um filho portador da condição, uma de suas bandeiras é garantir a qualidade de vida dessas pessoas que enfrentam um risco aumentado para a Doença de Alzheimer.
Síndrome de Down: pessoas sofrem processo de envelhecimento acelerado e casos de demência podem surgir entre os 35 e 40 anos
Daniil Slavinski para Pixabay
Em 1904, a expectativa de vida de um paciente com Down era de 9 anos; em 1984, era de 28; hoje está em torno de 60 anos. O que mudou? Antes, eles não eram submetidos a procedimentos cirúrgicos, embora problemas como a cardiopatia congênita sejam frequentes em quem é portador da síndrome.
“Foi um enorme avanço que possibilitou o aumento ..

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Daniil Slavinski para Pixabay
Em 1904, a expectativa de vida de um paciente com Down era de 9 anos; em 1984, era de 28; hoje está em torno de 60 anos. O que mudou? Antes, eles não eram submetidos a procedimentos cirúrgicos, embora problemas como a cardiopatia congênita sejam frequentes em quem é portador da síndrome.
“Foi um enorme avanço que possibilitou o aumento da sua expectativa de vida, mas esses adultos sofrem com um envelhecimento acelerado e, aos 40 anos, têm problemas que afligem os idosos. O Alzheimer pode se manifestar entre 35 e 40 anos”, explicou a médica em evento on-line realizado em setembro. E por que isso acontece? A síndrome é uma alteração genética na qual, em vez de ter dois cromossomos no par 21, a pessoa tem três. Para complicar, o cromossomo 21 traz o gene da APP, a proteína precursora amiloide, que desempenha um papel crucial no Alzheimer: ela se transforma na proteína beta-amiloide, que pode se agrupar em placas que causam danos ao cérebro. Resumindo: o risco aumentado está atrelado ao fato de carregarem três cromossomos 21.
A médica Tara Goodwin, membro da Global Down Syndrome Foundation
Divulgação
No entanto, a doutora Tara alerta que o diagnóstico para Alzheimer tem que ser por exclusão e que há outras condições médicas associadas à Síndrome de Down a serem checadas antes, porque também provocam mudanças de comportamento, como hipotireoidismo, apneia do sono, perda auditiva ou visual: “a perda de audição, por exemplo, pode ser confundida com desorientação. Entre os sintomas de disfunção da tireoide estão fadiga, lentidão de raciocínio e irritabilidade, mas o tratamento correto resolve essas questões”. Há ainda testes indicados para quem apresenta um quadro de prejuízo intelectual e sua orientação é de que devem ser feitos entre os 35 e 40 anos e repetidos anualmente.
Na sua avaliação, os medicamentos para ansiedade, depressão e insônia podem esbarrar em efeitos colaterais severos: “a polifarmácia é especialmente perigosa para esse grupo”. Valoriza as intervenções não medicamentosas e, para diminuir a angústia que se abate sobre as pessoas com demência – porque perdem a noção do que está acontecendo – sugere um grande quadro com a agenda do dia: “com uma lista das atividades que pode ser consultada a qualquer momento, a rotina se torna mais previsível e menos assustadora”.
Contou que já viu casos de pacientes medicados com antipsicóticos porque falavam sozinhos, um comportamento bastante comum entre os portadores da síndrome: “é uma forma de lidar com o estresse e resolver as dificuldades do dia a dia”. Para quem se interessar, o guia criado pela National Down Syndrome Society é encontrado neste link.

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G1

As dicas de terapeutas de família para ‘consertar’ relações destruídas pela briga política

Desavenças relacionadas às eleições de 2022, por exemplo, podem ser aliviadas com boas doses de paciência e investimento numa relação de respeito à diferença, apontam os psicólogos. Devemos acabar com o conceito de uma família idealizada e sem divergências, apontam psicólogos
Getty Images via BBC
Para muitos brasileiros, a escolha dos próximos governantes trouxe um efeito colateral importante: o rompimento de laços com familiares e amigos que têm uma visão política oposta.
Mas será que existem maneiras de resgatar essas relações?
Terapeutas ouvidos pela BBC News Brasil destacam que, sim, as eleições até podem ser um elemento de ruptura, mas é possível restaurar a proximidade com boas doses de paciência, boa vontade e diálogo.
Para o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), o primeiro passo está em deixar de lado aquela ideia de que as famílias são perfeitas.
“Muita gente enxerga a família como um lugar de santificação. Pre..

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Desavenças relacionadas às eleições de 2022, por exemplo, podem ser aliviadas com boas doses de paciência e investimento numa relação de respeito à diferença, apontam os psicólogos. Devemos acabar com o conceito de uma família idealizada e sem divergências, apontam psicólogos
Getty Images via BBC
Para muitos brasileiros, a escolha dos próximos governantes trouxe um efeito colateral importante: o rompimento de laços com familiares e amigos que têm uma visão política oposta.
Mas será que existem maneiras de resgatar essas relações?
Terapeutas ouvidos pela BBC News Brasil destacam que, sim, as eleições até podem ser um elemento de ruptura, mas é possível restaurar a proximidade com boas doses de paciência, boa vontade e diálogo.
Para o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), o primeiro passo está em deixar de lado aquela ideia de que as famílias são perfeitas.
"Muita gente enxerga a família como um lugar de santificação. Precisamos encará-la de uma forma mais humana, onde as pessoas cometem erros e são capazes de se desculpar e voltar atrás", diz.
O especialista entende que o seio familiar nunca foi um lugar de serenidade e concordância, mas, sim, de conflitos.
"Por que será que todo mundo fica receoso antes da festa de Natal? Nós sabemos que ali, quando todos os parentes estiverem reunidos, surgirão conversas desagradáveis, ressentimentos antigos, histórias não resolvidas…", lista.
"Nas fotos, até parece que todos se dão bem, mas sabemos no fundo que se trata de um barril de pólvora recheado de ciúmes, invejas, traições, dificuldades conjugais e disputas geracionais", complementa.
Dunker também destaca que dois acontecimentos recentes no Brasil influenciaram a forma como lidamos com pessoas próximas: a votação presidencial de 2018 e a pandemia de Covid-19.
"Há quatro anos, as eleições nos pegaram de surpresa e não estávamos preparados para lidar com tantas posições extremadas. Com isso, muitas brigas e rupturas aconteceram", analisa.
"Dois anos depois, tivemos a pandemia, em que a necessidade de ficar em isolamento em casa reforçou a importância dos laços sociais e da interação com o outro."
Na visão do psicanalista, esses dois eventos antagônicos fizeram com que as pessoas criassem maneiras de manter certas relações e ignorar comportamentos ou posições políticas contrárias.
"A gente vê mais claramente agora o papel das 'tias do deixa disso', que são aquelas figuras que intervém nos debates antes que eles se transformem em brigas", observa o professor da USP.
Mas será que esse pacto de silêncio é suficiente para evitar males maiores?
Pandemia reforçou a importância das conexões sociais, analisam especialistas
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Relações exigem empenho
Para a psicóloga Paula Regina Peron, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), jogar a sujeira para debaixo do tapete até evita conflitos no momento, mas pode postergar ou até ampliar problemas futuros.
"O que fica sem conversar na hora se torna difícil de falar depois", acredita.
"Se você deixa passar todos os incômodos que aparecem, isso só aumenta as dificuldades na relação entre as pessoas", conta.
A recomendação dela, portanto, é sempre buscar o diálogo, às vezes até com a ajuda de um mediador neutro, ou alguém que conte com o respeito de todas as partes envolvidas no conflito.
"Sempre vai ter aquele parente mais bem humorado, que consegue acalmar os ânimos ou julgar a situação de forma imparcial, apontando os erros de um e de outro", observa Peron.
A professora da PUC-SP lembra que qualquer relação entre dois indivíduos depende de um investimento mútuo.
"As pessoas precisam se empenhar para estabelecer e fortalecer os laços. Sem o interesse das partes envolvidas, isso não se mantém."
Nessas horas, outro exercício relevante é pensar em duas questões-chave. Em primeiro lugar, quais são aqueles que você realmente gosta e quer ter por perto? Segundo, quais são as visões de mundo e posicionamentos políticos inegociáveis para conviver com alguém?
"Nem sempre a família consanguínea é a mais saudável para um sujeito. Ele pode encontrar o apoio e a intimidade em outros grupos", lembra Peron.
"E há situações em que as diferenças são tão disruptivas que o melhor a ser feito é nem reconstruir certos laços", acrescenta.
A psicóloga chama a atenção para o fato de as famílias representarem, num plano limitado, as relações sociais de poder típicas do próprio país.
"A família não costuma ser uma ilha isolada do resto da cultura do lugar onde a gente vive", explica.
"Por isso vemos que muitos desses grupos reproduzem o racismo, o machismo e outras intolerâncias."
Dunker concorda. "A família pode ser o espaço em que os racismos se reforçam ou são tratados e resolvidos."
Viva as diferenças
Nos casos em que as discordâncias não são tão dramáticas assim e é possível pensar em curar as feridas abertas, uma saída envolve entender que é normal as pessoas pensarem de forma diferente.
"Esse é um bom momento para a família refletir sobre as diferenças e, se os conflitos não forem fundamentais, abrir espaço para negociações", sugere Peron.
"O grupo inteiro pode crescer com essa experiência, ao entender que não há necessidade de um pensamento homogêneo em tudo", acredita.
Pensar em quais relações você realmente quer manter é um dos passos para reatar laços e curar feridas emocionais
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Dunker também aponta que pode ser uma boa separar a política pública da vida privada.
"Muitas vezes, usamos os candidatos como uma maneira de extravasar frustrações e conflitos que vêm desde a infância", destaca.
"Uma maneira de evitar as brigas agora é reforçar os sentimentos de urbanidade, da educação e do bom trato entre as pessoas, mesmo com aquelas que você discorda", diz.
Dentro desse contexto, dar tempo ao tempo é outra medida sensata.
"Não adianta ficar forçando uma relação que foi desgastada e nem tudo precisa ser dito no calor da hora", afirma o professor da USP.
"Pode ser necessário esperar mais um tempinho até que a temperatura esfrie e você consiga estabelecer um diálogo novamente."
Ainda dentro dessa questão, a forma como vencedores e perdedores vão se comportar durante as próximas semanas pode ser absolutamente decisiva.
"Aprender a ganhar e a perder é uma tarefa básica da educação que nossa sociedade parece ter esquecido", pontua Dunker.
"Na história brasileira, o lado vitorioso costuma usar o sarcasmo e a humilhação como ferramentas diante do derrotado."
E isso, por sua vez, gera uma reação de vingança, raiva e rancor entre quem perdeu.
Dunker também lembra que, não raro, o derrotado não aceita os resultados ou não consegue admitir os erros que foram cometidos durante o processo — e isso cria instabilidades e tensões permanentes, que prejudicam os relacionamentos e até o desenvolvimento do país.
"Pode até parecer um clichê, mas só ganha no futuro quem aprende a perder no presente."
Por fim, Peron lembra que cada família tem uma dinâmica própria e, por mais que as recomendações e dicas ajudem, é preciso analisar caso a caso.
"As eleições podem até fazer com que os familiares evidenciem diferenças e rompam relações", admite.
"Mas precisamos lembrar que dependemos uns dos outros e tudo fica mais difícil quando estamos completamente sozinhos", conclui.
– Esse texto foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63096035

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G1

Carta para os meus netos

Um dia especial como hoje é uma boa oportunidade para se falar de valores que devem nos acompanhar durante a vida Queridos Gabriel e Sophie:
Embora a palavra queridos seja modestíssima para descrever meus sentimentos em relação a vocês, tentarei me conter para esta carta não se limitar a excessos amorosos de avó. Hoje é um dia importante e, apesar de ainda não significar muito para os dois, terá lugar de destaque nas aulas de História e em breve ambos estudarão o que está acontecendo. Portanto, trata-se de uma boa oportunidade para compartilhar valores que devem acompanhá-los durante a vida, porque a missão que cabe a cada um de nós é transformar o mundo num lugar melhor: sem preconceitos, sem fanatismo, com oportunidades para todos.
Carta para Sophie e Gabriel: sejam livres para viver a vida em seus próprios termos, mas sempre respeitando os outros
Acervo pessoal
Em primeiro lugar, sejam livres para viver a vida em seus próprios termos, seguindo seus sonhos e paixões, mas sempre resp..

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Um dia especial como hoje é uma boa oportunidade para se falar de valores que devem nos acompanhar durante a vida Queridos Gabriel e Sophie:
Embora a palavra queridos seja modestíssima para descrever meus sentimentos em relação a vocês, tentarei me conter para esta carta não se limitar a excessos amorosos de avó. Hoje é um dia importante e, apesar de ainda não significar muito para os dois, terá lugar de destaque nas aulas de História e em breve ambos estudarão o que está acontecendo. Portanto, trata-se de uma boa oportunidade para compartilhar valores que devem acompanhá-los durante a vida, porque a missão que cabe a cada um de nós é transformar o mundo num lugar melhor: sem preconceitos, sem fanatismo, com oportunidades para todos.
Carta para Sophie e Gabriel: sejam livres para viver a vida em seus próprios termos, mas sempre respeitando os outros
Acervo pessoal
Em primeiro lugar, sejam livres para viver a vida em seus próprios termos, seguindo seus sonhos e paixões, mas sempre respeitando os outros. Somente quem não tem apreço pela liberdade acha que é preciso silenciar quem pensa diferente.
Ponham sua energia e seu coração no que decidirem fazer, porque ter um propósito nos alimenta e permite que sigamos em frente mesmo quando encontramos obstáculos – e haverá um monte deles! Não se sintam obrigados a fazer uma única escolha: hoje em dia vivemos muito e podemos atuar em diferentes atividades e profissões.
Somos parte do meio ambiente e temos o compromisso de preservar a natureza, que é tão generosa com os habitantes do nosso planeta azulzinho.
Por último: vocês não são meus leitores, mas sou uma avó que escreve sobre longevidade. Para quem tem 11 e 5 anos, parece meio ficção científica, mas crianças sortudas viram adolescentes, depois adultos e velhos. Vamos aos “segredinhos” para trilhar esse caminho:
Cuidem da saúde, ela é um bem precioso. A lista de cuidados nem é tão grande assim: brinquem bastante ao ar livre e, quando crescerem, não parem, há diversas atividades físicas divertidas. A comida tem que continuar sendo colorida, com grãos, legumes, frutas. Não fumem. Bebam apenas para brindar em ocasiões felizes. Durmam o tempo necessário para descansar corpo e mente, sem o celular piscando ao lado da cama.
Cerquem-se de pessoas que vocês amam e que os amem de volta: este círculo de amizade e apoio vai ser fundamental nas horas difíceis. Não esqueçam de rir muito!
Alimentem a curiosidade: aprender é bacana em qualquer idade. Depois da escola e da universidade, virão outros cursos que trarão conhecimento, novos amigos e horizontes. Se fosse diferente, não seria um tédio?
Sabe quando seu pai diz que dinheiro não nasce em árvore? Parece bizarro (todo mundo sabe disso!), mas ele quer ensinar uma lição: precisamos aprender a poupar não apenas para comprar algo ou viajar, mas para ter uma reserva para daqui a uns 60 anos…

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G1

Câncer: por que a comunicação entre médico e paciente é fundamental

Tema foi destaque do II Congresso Luso-Brasileiro de Psico-oncologia, que reuniu especialistas dos dois países Um dos destaques do II Congresso Luso-Brasileiro de Psico-oncologia, realizado virtualmente nos dias 23 e 24, foi a comunicação entre médico e paciente. Coube ao oncologista Ricardo Caponero, do Hospital Oswaldo Cruz, dar a dimensão da sua relevância numa doença tão associada a más notícias. Em sua palestra, salientou como a formação médica é falha neste aspecto, a ponto de a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco em inglês) ter lançado documento com as diretrizes para orientar os profissionais.
O médico oncologista Ricardo Caponero: “tenho que conhecer a biografia do paciente e respeitar sua autonomia”
Divulgação
“A comunicação se dá desde o primeiro contato e é um processo contínuo, e não pontual. É preciso estabelecer uma semântica comum: avaliar o que o paciente sabe, perguntar o que ele quer saber, determinar o volume de informação para aquele momento. Falar não ..

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Tema foi destaque do II Congresso Luso-Brasileiro de Psico-oncologia, que reuniu especialistas dos dois países Um dos destaques do II Congresso Luso-Brasileiro de Psico-oncologia, realizado virtualmente nos dias 23 e 24, foi a comunicação entre médico e paciente. Coube ao oncologista Ricardo Caponero, do Hospital Oswaldo Cruz, dar a dimensão da sua relevância numa doença tão associada a más notícias. Em sua palestra, salientou como a formação médica é falha neste aspecto, a ponto de a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco em inglês) ter lançado documento com as diretrizes para orientar os profissionais.
O médico oncologista Ricardo Caponero: “tenho que conhecer a biografia do paciente e respeitar sua autonomia”
Divulgação
“A comunicação se dá desde o primeiro contato e é um processo contínuo, e não pontual. É preciso estabelecer uma semântica comum: avaliar o que o paciente sabe, perguntar o que ele quer saber, determinar o volume de informação para aquele momento. Falar não causa dano, o que causa é a forma”.
Ele recomendou a utilização da plataforma Vital Talks, que ensina como abordar questões relacionadas com doenças graves, como ferramenta para melhorar as habilidades dos profissionais. Na sua opinião, um dos problemas mais comuns é focar apenas a doença: “tenho que conhecer a biografia do paciente e respeitar sua autonomia”.
Caponero compartilhou dados de pesquisas para embasar sua apresentação. Uma delas descrevia como o momento do diagnóstico deflagra uma crise traumática e, embora a pessoa possa parecer tranquila, por dentro está vivendo um terremoto e às vezes nem sequer registra o que está sendo dito. “Três meses após o diagnóstico, 100% admitiram ter sofrido um choque profundo, 50% disseram ter recebido pouca ou nenhuma informação e 17% negaram que a conversa tivesse ocorrido”, relatou, acrescentando que cabe ao médico trabalhar para a redução do estresse do paciente: “ansiedade e depressão concorrem para um desfecho desfavorável”.
A psiquiatra Susana Almeida, professora da Faculdade de Medicina do Porto, afirmou que as várias fases da doença oncológica – pré-diagnóstico, diagnóstico, tratamento inicial, pós-tratamento, recorrências, doença progressiva, fase terminal – implicam tarefas e desafios diferentes que demandam a atenção do profissional de saúde:
“O sofrimento em geral melhora quando o doente entra numa fase ativa do tratamento e sente que recupera algum controle sobre a situação. A sociedade também tende a exigir que o paciente mantenha uma atitude positiva, expectativa que pode gerar culpa ou vergonha”.
Ela ressaltou que, quando o tratamento inicial termina, as pessoas se tornam hiper-vigilantes em relação a eventuais sinais de recidiva: “é importante normalizar essa ansiedade e entender que ela não é patológica. O indivíduo vinha lidando com uma ameaça concreta, é impossível fazer um ‘reset’ de uma hora para a outra”.
A advogada Luciana Dadalto, doutora em ciências da saúde pela Faculdade de Medicina da UFMG e uma referência em testamento vital, defendeu a criação de uma lei voltada para os direitos do paciente: “temos que nos basear nas leis existentes, como a Constituição e até o Código de Defesa do Consumidor”. Criticou o que chamou de “conspiração do silêncio" numa sociedade que se nega a falar sobre a finitude humana. “Quando surge a pergunta: ‘e se o tratamento curativo não der certo?’, a resposta normalmente é que essa conversa não é para agora. Na verdade, temos que desabilitar a ‘máquina’ que ‘apita’ quando uma pessoa entra num hospital e que a despe da sua identidade e autonomia”, enfatizou.
A psicóloga Fabiana Caron, presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia
Acervo pessoal
O evento foi organizado pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO) e Fabiana Caron, presidente da entidade, lamenta que o Conselho Federal de Psicologia não reconheça a especialidade da psico-oncologia: “assim como os médicos passam por uma residência para conseguir a especialização na área, o mesmo deveria ocorrer para os psicólogos. Sem uma formação adequada, é maior a dificuldade para tecer a rede de cuidados de que o paciente precisa”. Ela ainda alerta para a necessidade de que os psiquiatras tenham uma visão mais profunda da psico-oncologia, uma vez que protocolos como a quimioterapia interagem com psicotrópicos.

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G1

Fraturas de quadril vão dobrar até 2050

Pesquisadores alertam que é preciso investir na prevenção e que uma proporção maior de homens será afetada pelo problema A fratura de quadril caminha para se tornar uma severa questão de saúde pública global à medida que a população envelhece e fica mais frágil. Pesquisadores da Universidade de Hong Kong analisaram dados de pacientes de 19 países, com 50 anos ou mais, que haviam sofrido fratura entre 2005 e 2008. Com base nas informações disponíveis, a projeção é de que, em 2050, esse número dobre, com uma proporção maior de homens sendo afetados pelo problema.
A fratura de quadril caminha para se tornar uma severa questão de saúde pública global à medida que a população envelhece e fica mais frágil
Anja#pray para Pixabay
O estudo, apresentado no encontro anual da Sociedade Americana de Pesquisa Óssea e Mineral no começo do mês, sugere algumas razões possíveis para a diferença entre os sexos. Uma delas é o aumento da expectativa de vida masculina que, em 2050, chegará a 75 anos em te..

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Pesquisadores alertam que é preciso investir na prevenção e que uma proporção maior de homens será afetada pelo problema A fratura de quadril caminha para se tornar uma severa questão de saúde pública global à medida que a população envelhece e fica mais frágil. Pesquisadores da Universidade de Hong Kong analisaram dados de pacientes de 19 países, com 50 anos ou mais, que haviam sofrido fratura entre 2005 e 2008. Com base nas informações disponíveis, a projeção é de que, em 2050, esse número dobre, com uma proporção maior de homens sendo afetados pelo problema.
A fratura de quadril caminha para se tornar uma severa questão de saúde pública global à medida que a população envelhece e fica mais frágil
Anja#pray para Pixabay
O estudo, apresentado no encontro anual da Sociedade Americana de Pesquisa Óssea e Mineral no começo do mês, sugere algumas razões possíveis para a diferença entre os sexos. Uma delas é o aumento da expectativa de vida masculina que, em 2050, chegará a 75 anos em termos globais – e essa é uma idade na qual o risco cresce. De acordo com Ching-Lung Cheung, professor do departamento de farmacologia e farmácia da universidade, um outro aspecto deve ser levado em conta: “a osteoporose tem sido subdiagnosticada entre os homens. O uso de medicamentos para combater a osteoporose masculina depois de uma fratura de quadril é muito menor, numa proporção entre 30% e 67% abaixo do que é empregado para as mulheres”.
Na osteoporose, há uma diminuição da massa óssea, o que deixa os ossos mais frágeis e predispostos a fraturas. O risco aumenta depois da menopausa e também para os homens, a partir dos 50 anos. Histórico familiar, sofrer de artrite reumatoide, fumar e beber em excesso contribuem para o quadro.
Os países que tiveram maior declínio no número de fraturas foram Dinamarca, Singapura e Hong Kong, enquanto o maior número ocorreu na Holanda e Coreia do Sul. O melhor desempenho para lidar com a questão se deve, segundo os pesquisadores, a um conjunto de fatores: conscientização das pessoas sobre como manter a saúde dos ossos, monitoramento adequado de quem apresenta um quadro de osteoporose e cuidados depois de uma fratura. “Programas de prevenção de quedas e orientações clínicas claras para o atendimento e acompanhamento dos pacientes têm feito muita diferença”, avaliou Chor-Wing Sing, coautor do trabalho. Ele citou um estudo feito em Hong Kong mostrando que a diminuição de casos estava diretamente associada ao fato de mulheres acima dos 50 anos terem se tornado mais ativas fisicamente e adeptas de musculação.

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G1

E quando o declínio cognitivo é do médico?

Em artigo, professora de direito afirma que é preciso discutir como avaliar se o desempenho de um profissional da saúde está sendo afetado Médicos mais velhos se beneficiam de sua longa experiência e das habilidades que desenvolveram ao longo de décadas de prática. Ao mesmo tempo, à medida que o tempo passa, aumenta o risco de declínio cognitivo – que não é exclusividade de pacientes – impactando seu desempenho e tomada de decisões. O comprometimento cognitivo pode afetar seriamente a performance de um profissional da saúde ao causar lapsos de memória, redução da atenção e da capacidade de resolver problemas. Como lidar com a questão? Cabe ao conselho dos hospitais desenvolver formas de monitoramento e tomar algum tipo de atitude? Há limites éticos e morais para essas ações? Esse foi o teor do artigo da advogada Sharona Hoffman, professora de direito e bioética da Case Western Reserve University, publicou no “Journal of Medical Regulation”.
O Colégio Americano de Cirurgiões lançou, em ..

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Em artigo, professora de direito afirma que é preciso discutir como avaliar se o desempenho de um profissional da saúde está sendo afetado Médicos mais velhos se beneficiam de sua longa experiência e das habilidades que desenvolveram ao longo de décadas de prática. Ao mesmo tempo, à medida que o tempo passa, aumenta o risco de declínio cognitivo – que não é exclusividade de pacientes – impactando seu desempenho e tomada de decisões. O comprometimento cognitivo pode afetar seriamente a performance de um profissional da saúde ao causar lapsos de memória, redução da atenção e da capacidade de resolver problemas. Como lidar com a questão? Cabe ao conselho dos hospitais desenvolver formas de monitoramento e tomar algum tipo de atitude? Há limites éticos e morais para essas ações? Esse foi o teor do artigo da advogada Sharona Hoffman, professora de direito e bioética da Case Western Reserve University, publicou no “Journal of Medical Regulation”.
O Colégio Americano de Cirurgiões lançou, em 2016, documento que enfatiza a necessidade de que os membros avaliem suas funções neurocognitivas
Debora Alves para Pixabay
Samantha já havia escrito “Cognitive decline and the workplace” (“Declínio cognitivo e o ambiente de trabalho”), onde abordava as barreiras legais para a implantação de testes. No entanto, fazia a ressalva de que, em diversas atividades – quase todas ligadas a questões de segurança – há uma idade de aposentadoria compulsória. É o caso de bombeiros, pilotos e controlares aéreos, por exemplo. Depois de destacar que, apesar do envelhecimento da população, o problema ainda não ganhou a atenção do meio jurídico, sua sugestão é de que programas de monitoramento de profissionais idosos sejam construídos com cuidado e sensibilidade.
Nos Estados Unidos, país onde a discussão vem ganhando destaque, mais de 15% dos médicos têm idade superior a 65 anos. Se levarmos em conta que o risco de Alzheimer dobra a cada cinco anos depois dos 65 e que quase um terço das pessoas acima dos 85 tem a doença, não se trata de um debate fútil. Entre 2016 e 2019, o Yale New Haven Hospital, em Connecticut, submeteu 141 profissionais com mais de 70 anos a testes. A maioria (125) era composta por médicos, mas também havia enfermeiros, dentistas e psicólogos. A instituição descobriu que 18 deles, o equivalente a 12.7% da equipe, apresentavam algum tipo de déficit cognitivo que poderia impactar negativamente suas funções.
Em Ontário, no Canadá, uma análise realizada entre médicos descobriu que 22% dos profissionais acima dos 75 anos tinham dificuldades cognitivas; na faixa entre 50 e 75, o índice baixava para 14%. O Colégio Americano de Cirurgiões lançou, em 2016, um documento sobre o envelhecimento que enfatiza a necessidade de que os membros avaliem suas funções neurocognitivas através de ferramentas on-line que garantirão a privacidade da consulta, compartilhando qualquer achado preocupante com seus pares no ambiente de trabalho.

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G1

Políticas públicas para a velhice: o que se espera do próximo governo

A pouco mais de uma semana do Dia Internacional da Pessoa Idosa, candidatos não têm se manifestado sobre esse segmento da população Em 1º. de outubro, comemora-se o Dia Internacional da Pessoa Idosa. Será a véspera do primeiro turno das eleições, por isso aproveito para tratar de uma questão que vem sendo relegada ao segundo (ou seria quinto?) plano: as políticas públicas voltadas para o envelhecimento ativo dos cidadãos. Não estou sozinha na empreitada. Pedi a contribuição de estudiosos do assunto e começo pelo médico e gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR), que também dirigiu o Departamento de Envelhecimento e Curso de Vida da Organização Mundial da Saúde. “Há 35 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais e estamos envelhecendo num cenário de enorme desigualdade”, analisa, propondo cinco eixos de ação:
Políticas públicas centradas numa perspectiva de direitos para o grupo que mais cresce no país e alinhadas com o compromisso ..

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A pouco mais de uma semana do Dia Internacional da Pessoa Idosa, candidatos não têm se manifestado sobre esse segmento da população Em 1º. de outubro, comemora-se o Dia Internacional da Pessoa Idosa. Será a véspera do primeiro turno das eleições, por isso aproveito para tratar de uma questão que vem sendo relegada ao segundo (ou seria quinto?) plano: as políticas públicas voltadas para o envelhecimento ativo dos cidadãos. Não estou sozinha na empreitada. Pedi a contribuição de estudiosos do assunto e começo pelo médico e gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR), que também dirigiu o Departamento de Envelhecimento e Curso de Vida da Organização Mundial da Saúde. “Há 35 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais e estamos envelhecendo num cenário de enorme desigualdade”, analisa, propondo cinco eixos de ação:
Políticas públicas centradas numa perspectiva de direitos para o grupo que mais cresce no país e alinhadas com o compromisso com a “Década do Envelhecimento Saudável” (2021-2030) da OMS;
Fortalecimento do SUS e investimento no campo da gerontecnologia para promover a saúde e gerar empregos;
Representatividade dos mais velhos nas discussões políticas através da sua participação em conselhos e estímulo a estados e municípios para ampliar a rede de cidades amigas da pessoa idosa;
Programas de incentivo que garantam proteção social, aprendizado contínuo e acesso ao mercado de trabalho para os idosos;
Combate à discriminação etária, dando visibilidade à diversidade das velhices.
Políticas públicas para o envelhecimento ativo: distância entre o marco legal e o Brasil real
Daniel Nebreda para Pixabay
Para a economista Ana Amelia Camarano, pesquisadora da Diretoria de Estudos Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a pandemia escancarou a falta de políticas de cuidado: “quem está cuidando e quem vai cuidar? Essa é a pergunta que deve ser respondida, porque está entrelaçada com a geração de empregos, principalmente de mulheres”. Começa pelas crianças para chegar aos idosos, afirmando que dois terços das que nascem pertencem a famílias pobres. A mãe não trabalha fora porque tem que cuidar, perpetuando o ciclo de pobreza, ao passo que uma política de creches garantiria renda para esta mulher e mais condições de desenvolvimento para seus filhos.
“O cuidador familiar é quase sempre uma esposa ou uma filha. Em 2013, fiz uma estimativa de que há um milhão de mulheres nessa posição. Elas precisam ser remuneradas e devemos inseri-las no sistema de previdência social, ou estarão diante de uma perspectiva de precariedade até o fim da vida”, diz.
A geriatra Karla Giacomin, coordenadora da Frente Nacional de Fortalecimento à ILPI e vice-presidente do ILC-BR, declara que as instituições de longa permanência são apenas a “ponta do iceberg” da falta de uma política de cuidados. Defende que o pagamento e o cofinanciamento das ILPIs têm que ser uma responsabilidade tripartite: municipal, estadual e federal: “hoje, com exceção das de alta renda, as famílias têm que escolher entre trabalhar ou cuidar do idoso”. Avalia que assistimos ao desmonte das políticas de saúde coletiva: “as intervenções do governo são indispensáveis para mudanças relevantes como a redução do tabagismo, da ingestão de sal ou da melhoria da merenda escolar”.
“Temos que proteger os que envelhecem precariamente e garantir que o maior número de pessoas consiga envelhecer sem precisar de cuidados. As duas coisas não se excluem, são complementares. Sabemos que 35% dos casos de demência podem ser evitados com ações de educação para a adoção de um estilo de vida saudável. No entanto, além de informação, as pessoas precisam de meios para se exercitar, se alimentar bem, cuidar da visão, da audição, da pressão”.
Marília Berzins, doutora em saúde pública e presidente do Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento, é assertiva: “temos um marco legal e um Brasil real, que está muito longe de oferecer o conjunto de políticas já estabelecidas”. Defende o fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social para oferecer uma rede de proteção: “nem sabemos ao certo quantas ILPIs há no país e a maioria é de filantrópicas, principalmente religiosas. Vem crescendo o número de particulares, mas as públicas são raríssimas. Quando se fala de centros-dia, na cidade de São Paulo não chegam a 25 e cada um dispõe de apenas 30 vagas por período, manhã ou tarde. Também é preciso criar unidades de referência de saúde da pessoa idosa e investir em estratégias inovadores para o cuidado”.
Uma de suas bandeiras é o reconhecimento da profissão de cuidador, cuja regulamentação foi vetada pelo presidente Jair Bolsonaro: “essa mão de obra é fundamental, tem que ser bem preparada e valorizada”. Lembra ainda que o SUS precisa ofertar uma política nacional de cuidados: “os jovens têm prioridade nos aparelhos auditivos, que são da maior importância para prevenir a demência de idosos, e o mesmo acontece com a reabilitação”.

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G1

O que você pode aprender com cinco pesquisas sobre fatores de risco para o coração

Novos estudos ratificam a importância de dormir bem, adotar uma dieta saudável e prestar atenção redobrada aos problemas cardiovasculares femininos Fibrilação atrial feminina: doenças coronarianas são a principal causa de morte entre mulheres e uma em cada quatro desenvolve fibrilação atrial – o que aumenta as chances de um derrame. Diabetes e tabagismo são mais perigosos para o sexo feminino e a hipertensão tende a ser mais prevalente e menos controlada entre idosas. Some-se a isso o fato de as mulheres vivenciarem experiências como a gravidez e a menopausa, com grandes mudanças hormonais. Resultado: fatores de risco específicos de gênero vêm ganhando atenção dos pesquisadores. A fibrilação atrial é uma das condições nas quais as questões reprodutivas acendem um sinal amarelo. Cientistas britânicos usaram dados do UK Biobank e examinaram o papel de características como: idade da primeira menstruação e da menopausa, regularidade do ciclo menstrual, nascimento do primeiro filho, número ..

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Novos estudos ratificam a importância de dormir bem, adotar uma dieta saudável e prestar atenção redobrada aos problemas cardiovasculares femininos Fibrilação atrial feminina: doenças coronarianas são a principal causa de morte entre mulheres e uma em cada quatro desenvolve fibrilação atrial – o que aumenta as chances de um derrame. Diabetes e tabagismo são mais perigosos para o sexo feminino e a hipertensão tende a ser mais prevalente e menos controlada entre idosas. Some-se a isso o fato de as mulheres vivenciarem experiências como a gravidez e a menopausa, com grandes mudanças hormonais. Resultado: fatores de risco específicos de gênero vêm ganhando atenção dos pesquisadores. A fibrilação atrial é uma das condições nas quais as questões reprodutivas acendem um sinal amarelo. Cientistas britânicos usaram dados do UK Biobank e examinaram o papel de características como: idade da primeira menstruação e da menopausa, regularidade do ciclo menstrual, nascimento do primeiro filho, número de gestações que chegaram a termo e total de anos reprodutivos. Com informações de mais de 235 mil mulheres, o estudo mostrou que a menarca que ocorre cedo ou muito tarde; menstruações irregulares; nenhuma ou múltiplas gestações; ou menopausa precoce ou tardia geram um risco significativamente maior de fibrilação atrial e demandam monitoramento.
Nove entre dez pessoas sofrem com noites maldormidas e, de acordo com pesquisa da Sociedade Europeia de Cardiologia, o sono de má qualidade está associado a um risco maior de doença cardiovascular
Pixabay
Quem dorme diminui o risco de doença coronariana: nove entre dez indivíduos sofrem com noites maldormidas e, de acordo com pesquisa recente da Sociedade Europeia de Cardiologia, o sono de má qualidade está associado ao risco aumentado de doença cardiovascular e acidente vascular encefálico (derrame). Os autores do trabalho estimam que sete em cada dez casos poderiam ser evitados se as pessoas dormissem melhor. Para piorar, outro estudo afirma que não dormir bem nos torna mais egoístas… O blog publicou diversas colunas sobre dicas para um bom descanso, confira aqui.
Cigarro é ainda pior do que se imaginava: o alerta vem novamente da Sociedade Europeia de Cardiologia. A médica dinamarquesa Eva Holt, autora do trabalho, afirma: “sabemos que fumar causa entupimento das artérias, mas também deixa o coração mais espesso e fraco. Isso significa que fumantes dispõem de um volume menor de sangue no ventrículo esquerdo e menos força para bombeá-lo para o resto do corpo. Mas nunca é tarde demais para largar o vício”.
Mudanças na dieta, ferramenta valiosa para hipertensos: apresentado num encontro da Associação Americana do Coração (AHA em inglês), estudo mostra que ajustes feitos na alimentação são até mais eficazes que outras mudanças no estilo de vida para pacientes jovens ou de meia-idade que tenham hipertensão no estágio 1. A análise apontou que, nos EUA, a adoção de dieta à base de carnes magras, frutas, legumes, nozes e grãos – e restrição de açúcar, sal e carne vermelha – poderia evitar, nos próximos dez anos, 15 mil eventos cardíacos em homens e 11 mil em mulheres.
Centros dedicados à saúde do coração das mulheres: já há consenso entre cientistas que problemas cardiovasculares femininos não recebem a atenção devida. Elas sofrem com diagnósticos e tratamentos tardios e estão sub-representadas em ensaios clínicos. Levantamento publicado no “Canadian Journal of Cardiology” sugere que a criação de centros dedicados à saúde do coração das mulheres diminuiria o volume de desfechos negativos. Pacientes com dor no peito, isquemia ou mesmo infarto nem sempre apresentam bloqueio das principais artérias coronárias, mas sofrem o estreitamento e disfunção de vasos secundários, quadro que pode passar despercebido.

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Como superar a dor causada por uma mãe abusiva

“Um indivíduo submisso sofre forte impacto na construção da sua autoestima, tem dificuldade em reconhecer seu valor”, diz psicóloga Quando se pensa na figura materna, a associação é imediata: amor incondicional, dedicação, cuidado. Mas, e quando afeto e acolhimento não existem? Apesar da ideia de uma mãe abusiva ser tão chocante que, para o imaginário coletivo, parece inverossímil, a experiência é bastante real – e dolorosa – para quem vive esse tipo de relação. Em agosto, a ex-atriz infantil Jennette McCurdy, agora com 30 anos, lançou “I´m glad my mom died” (“Feliz porque mamãe morreu”), que imediatamente se tornou um best-seller. No livro, conta que, aos 11 anos, a mãe a submeteu a uma dieta de restrição calórica para que permanecesse franzina, com aparência infantil. Também deu banho nela até os 17 anos e costumava examinar seu corpo de forma inapropriada. No entanto, só teve consciência de que era vítima de uma relação abusiva depois da sua morte, em 2013. “Primeiro fiquei devastad..

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“Um indivíduo submisso sofre forte impacto na construção da sua autoestima, tem dificuldade em reconhecer seu valor”, diz psicóloga Quando se pensa na figura materna, a associação é imediata: amor incondicional, dedicação, cuidado. Mas, e quando afeto e acolhimento não existem? Apesar da ideia de uma mãe abusiva ser tão chocante que, para o imaginário coletivo, parece inverossímil, a experiência é bastante real – e dolorosa – para quem vive esse tipo de relação. Em agosto, a ex-atriz infantil Jennette McCurdy, agora com 30 anos, lançou “I´m glad my mom died” (“Feliz porque mamãe morreu”), que imediatamente se tornou um best-seller. No livro, conta que, aos 11 anos, a mãe a submeteu a uma dieta de restrição calórica para que permanecesse franzina, com aparência infantil. Também deu banho nela até os 17 anos e costumava examinar seu corpo de forma inapropriada. No entanto, só teve consciência de que era vítima de uma relação abusiva depois da sua morte, em 2013. “Primeiro fiquei devastada, depois senti uma ponta de alívio, logo seguida de culpa. Procurei ajuda e abandonei a terapeuta quando ela me disse que eu tinha sofrido abuso, porque não podia encarar a verdade”, contou em entrevistas. Jennette deu voz à sua dor numa obra libertadora, mas muitos ainda estão aprisionados neste trauma. Conversei com Simone Domingues, psicóloga especialista em neuropsicologia, com pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille (França) e uma das autoras do canal @dezporcentomais, sobre o caminho da superação.
Simone Domingues, psicóloga especialista em neuropsicologia: o autoconhecimento abre a alternativa de se construir um caminho próprio e valioso
Acervo pessoal
O que caracteriza uma relação abusiva?
É o tipo de relação pautada por atos repetitivos com o objetivo de manipular e subjugar através da violência. Violência que pode ser física, com empurrões, tapas, surras; psicológica, com ações e agressões verbais vexatórias, com a intenção de humilhar, de destruturar; ou sexual. Pais e mães se valem de sua autoridade para desvalorizar e desrespeitar esse filho ou filha, não levando em conta as necessidades e os sentimentos da outra pessoa.
Qual é o impacto provocado por esse tipo de relação?
Os pais são muito importantes para a criação da autoestima, para aprendermos a regular nossas emoções. Um indivíduo submisso, que não pode expressar suas opiniões, seus sentimentos, sofre forte impacto na construção da sua autoestima, tem dificuldade em reconhecer seu valor. Se não reconhece seu valor e está acostumado com uma relação na qual o outro é que determina as regras, as chances de embarcar em novas relações abusivas são grandes. A pessoa vai fazer de tudo para ser aceita e amada, o que gera um risco maior de ansiedade, depressão e perfeccionismo, porque acredita que não pode falhar.
Por que a expressão mãe narcisista se tornou popular? Ela é um retrato da relação abusiva?
Aqui vale uma reflexão porque, apesar de ser muito empregada, a expressão vem sendo utilizada erroneamente. A literatura científica não a reconhece. O chamado transtorno de personalidade narcisista tem um padrão caracterizado por um perfil de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia, ou seja, de dificuldade de reconhecer as necessidades do outro. Esse padrão indica uma autoestima vulnerável, que precisa ser alimentada continuamente. Se houver qualquer dúvida ou sinal de que não está sendo admirada, a pessoa sente o golpe – é a ferida narcísica. No entanto, é prevalente em homens, que correspondem a 75% dos casos.
No imaginário coletivo, o espaço da mãe é o do afeto. Isso torna ainda mais doloroso conviver com uma mãe abusiva?
Ouço com frequência no consultório: “do meu pai eu esperaria tal coisa, da minha mãe, não”. Uma falha no que é esperado do papel da mãe amorosa tem um peso enorme. Por trás, há uma equação perversa recorrente. Meninas que sofrem abusos tendem a repetir suas experiências, num processo de mimetismo de negligência, maus-tratos, violência. O autoconhecimento é que vai romper esse ciclo. Todos somos falhos e os filhos vão perceber isso em algum momento, mas podemos nos permitir mudar.
E para quem sofreu os abusos, qual é o caminho?
Primeiro eu gostaria de alertar para a necessidade de criar espaços seguros onde as crianças possam ser acolhidas e se abrir. Boa parte dos relatos de violência cometidos por mulheres surge a partir de relações de confiança da criança com um terapeuta, psicólogo ou professor. Muitas vezes, a saída é o afastamento, é deixar de conviver. O que nos leva a outra situação complicada: quando a mãe abusiva envelhece e precisa de ajuda. É difícil ter o amor ou o cuidado desse filho ou filha se a relação foi pautada pelo medo e pela submissão. O caminho também é o processo de autoconhecimento, com a aceitação da própria história. Quando aceito e entendo que não dá para modificar o que houve, posso construir um caminho próprio e valioso. Posso não ter tido o pai ou a mãe que gostaria, mas me tornar o filho que desejo ser é uma escolha minha. E não perpetuar os erros da minha criação com meus filhos.

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Brasil tem redução de insetos terrestres, diz estudo da UFSCar, Unicamp e UFRGS; entenda causas

Pesquisa analisou tendência de 5 anos no declínio de insetos como abelhas, borboletas, vespas, formigas e besouros, que são considerados essenciais para ecossistema e as atividades agrícolas. Estudo da UFSCar e outras 2 universidades aponta redução de insetos como as abelhas
Getty Images/BBC
Um estudo desenvolvido pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em Araras (SP), em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), detectou a redução no número de insetos terrestres no Brasil, como abelhas, borboletas, vespas, formigas e besouros.
Eles são considerados essenciais para a manutenção do ecossistema e das atividades agrícolas. Entre as causas está o uso de agrotóxicos. (veja abaixo as principais causas).
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Umas das responsáveis pelo projeto é Kayna Agostini, docente no Departamento de Ciências da Natureza, Matemática e Educação (DCNME-Ar), do campus de Araras da UFS..

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Pesquisa analisou tendência de 5 anos no declínio de insetos como abelhas, borboletas, vespas, formigas e besouros, que são considerados essenciais para ecossistema e as atividades agrícolas. Estudo da UFSCar e outras 2 universidades aponta redução de insetos como as abelhas
Getty Images/BBC
Um estudo desenvolvido pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em Araras (SP), em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), detectou a redução no número de insetos terrestres no Brasil, como abelhas, borboletas, vespas, formigas e besouros.
Eles são considerados essenciais para a manutenção do ecossistema e das atividades agrícolas. Entre as causas está o uso de agrotóxicos. (veja abaixo as principais causas).
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Umas das responsáveis pelo projeto é Kayna Agostini, docente no Departamento de Ciências da Natureza, Matemática e Educação (DCNME-Ar), do campus de Araras da UFSCar.
Os pesquisadores analisaram as tendências dos últimos cinco anos, com base em 45 estudos publicados. Foram aplicados, também, questionários a 156 cientistas que pesquisam insetos no país.
O estudo 'Insect decline in Brazil: an appraisal of current evidence' foi publicado na revista científica Biology Letters. O documento pode ser acessado de forma online.
LEIA TAMBÉM: O que aconteceria se todos os insetos desaparecessem da face da Terra?
Campus da UFSCar em Araras
Divulgação/CCS UFSCar
Conclusões dos estudos
Entre as principais causas do declínio de insetos terrestres, com base nos pesquisadores, estão:
mudanças no uso da terra, com substituição da vegetação nativa pela agricultura;
uso de agrotóxicos;
mudanças climáticas.
A introdução de espécies exóticas, apesar de menos comum, também pode interferir na sobrevivência de animais locais. As exóticas podem ser competidoras de espécies nativas e acabar com uma população.
No caso das abelhas, por exemplo, a drástica modificação de alguns espaços, com a retirada da vegetação e a implementação do asfaltos e luzes, excluiu o espaço propício para a construção de seus ninhos, o que pode estar associado à redução no número dessa população.
Drástica modificação dos espaços provoca morte de abelhas e consequente redução no número da espécie
TV Globo/Reprodução
Outras investigações
A iniciativa investigou também a quantidade de animais aquáticos nos últimos anos. Com base nos estudos, não houve declínio, porém não se pode afirmar que os espaços estão bem conservados.
"A maioria das pesquisas é muito recente, e as regiões desses insetos já estavam degradadas. Como não houve monitoramento antes de toda a poluição e a mudança do ambiente, não sabemos, de fato, se houve ou não declínio em um maior espaço de tempo", afirma Agostini.
Segundo Agostini, o conhecimento e o monitoramento são passos essenciais para a conservação das espécies.
"Há muitas desconhecidas e, ao mesmo tempo, dados científicos pulverizados. Os desafios passam por aumentar os investimentos na área para conseguirmos seguir com a pesquisa, realizando essas descobertas e, também, tendo um monitoramento anual dos insetos para, assim, auxiliar em tomadas de decisão, com vistas à conservação das espécies."
Importância dos insetos
Os insetos desempenham um papel fundamental na produção de alimentos e na preservação de nosso ecossistema.
Os insetos quebram as estruturas biológicas, o que acelera o processo de decomposição. Isso ajuda a reabastecer o solo. Eles também fornecem alimentos para pássaros, morcegos e pequenos mamíferos.
Além de ser uma valiosa fonte de alimento para outras espécies e servir aos ecossistemas pela reciclagem, os insetos fornecem outro serviço vital: a polinização, que é essencial para a produção de alimentos.
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G1

Estigma dos opioides ainda afeta os cuidados paliativos

Seminário debateu resistência dos médicos em prescrever drogas que aliviam a dor mas podem causar dependência Na quinta-feira passada, assisti ao seminário “Cuidados paliativos e a dimensão do possível”, organizado pelos médicos Daniel Tabak e Claudia Burlá, na Academia Nacional de Medicina. Decidi escrever sobre três palestras com as quais muitos vão se identificar, uma vez que envolvem questões com que nos deparamos ao lidar com uma doença grave ou o fim de vida de um ente querido. Começo pela apresentação “É possível cuidar da dor sem medo dos opioides?”, feita pelo médico Henrique Parsons, professor do departamento de cuidados paliativos da Universidade de Ottawa, que tratou de um assunto delicado: a opiofobia, isto é, a resistência dos profissionais de saúde em prescrever esse tipo de substância. Seu primeiro slide mostrava um “SIM” em letras garrafais, mas com ressalvas: “é preciso formação técnica adequada, indicação precisa, disponibilidade das drogas, avaliações constantes e a..

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Seminário debateu resistência dos médicos em prescrever drogas que aliviam a dor mas podem causar dependência Na quinta-feira passada, assisti ao seminário “Cuidados paliativos e a dimensão do possível”, organizado pelos médicos Daniel Tabak e Claudia Burlá, na Academia Nacional de Medicina. Decidi escrever sobre três palestras com as quais muitos vão se identificar, uma vez que envolvem questões com que nos deparamos ao lidar com uma doença grave ou o fim de vida de um ente querido. Começo pela apresentação “É possível cuidar da dor sem medo dos opioides?”, feita pelo médico Henrique Parsons, professor do departamento de cuidados paliativos da Universidade de Ottawa, que tratou de um assunto delicado: a opiofobia, isto é, a resistência dos profissionais de saúde em prescrever esse tipo de substância. Seu primeiro slide mostrava um “SIM” em letras garrafais, mas com ressalvas: “é preciso formação técnica adequada, indicação precisa, disponibilidade das drogas, avaliações constantes e a educação de pacientes e familiares”, detalhou.
Utilização de opioides no manejo da dor: médicos resistem a prescrever drogas que podem causar dependência
Truthseeker08 por Pixabay
Os opioides são drogas naturais, semissintéticas e sintéticas utilizadas para o manejo da dor em casos de câncer, falências orgânicas (cardíaca, renal, hepática), doenças neurodegenerativas, demências e esclerose múltipla. No entanto, seu uso indiscriminado provocou a chamada crise dos opioides, que ceifou cerca de 500 mil vidas norte-americanas nas primeiras décadas do século XXI, deixando a comunidade médica de cabelos em pé – recomendo a série “Dopesick” que mostra, sem retoques, como a farmacêutica Purdue Pharma promoveu o analgésico oxicodona através de agressivas campanhas de marketing.
“O estigma ainda é muito forte. Há receio em relação à prescrição por causa dos efeitos colaterais, do risco de intoxicação e adição, mas uma dose baixa de morfina pode ser mais segura que outras drogas. Ela não faz parte necessariamente do fim da vida, e sim do manejo de sintomas a serem tratados”, explicou Parsons.
Os efeitos colaterais podem ser pesados, envolvendo problemas de neurotoxicidade como delirium, mioclonias (espasmos) e sedação, além de constipação, náusea, vômitos e hipopneia (interrupção da respiração). “O monitoramento é fundamental e, no começo, é necessário ver o paciente com frequência, para checar se as doses estão corretas. Também é preciso ser realista em relação às expectativas: a dor zero não é real”, disse o médico.
“Como cuidar do luto dos que duraram?” foi o tema da psicóloga Erika Pallotino, criadora do Instituto Entrelaços: “luto não é um evento pós-morte. Ele começa no diagnóstico, passa pelo tratamento, pelos cuidados de fim de vida, pelo óbito e pós-óbito. Em todas essas etapas, uma parte nossa morre. Mas a história da doença não pode ser maior que a história da vida”, enfatizou. Sobre o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, comemorado em 8 de outubro, lembrou que o tema “Curando corações e comunidades” (“Healing hearts and communities”) é uma referência às perdas que a pandemia provocou:
“Eventos globais aumentaram a carga de luto de famílias e provedores de saúde, a necessidade de curar une humanos do mundo todo. Para cada morto, há nove enlutados, o que significa que há 6 milhões de pessoas nesta situação no Brasil. Mais de 130 mil crianças perderam seus cuidadores, entre pais e avós. As mortes causadas pela Covid demandam políticas públicas sobre o luto”.
A juíza de direito do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro Maria Aglaé Tedesco Vilardo, doutora em bioética, ética aplicada e saúde coletiva, discorreu sobre os limites e possibilidades da autonomia do indivíduo. E foi enfática ao mostrar como a legislação protege o direito ao livre arbítrio dos pacientes. De acordo com a Constituição, “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”; pelo Código Civil, “os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária”; enquanto o Estatuto da Pessoa Idosa prevê “o direito de optar pelo tratamento de saúde que lhe for reputado mais favorável”. Até o Estatuto da Pessoa com Deficiência estabelece: “o consentimento prévio, livre e esclarecido é indispensável para tratamento, procedimento, hospitalização e pesquisa científica, mesmo em situação de curatela, assegurada a participação, no maior grau possível”. Nosso corpo, nossas regras – tenham isso em mente.

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